8/23/2017

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livros na estante
eletro eletrônicos, discos
enfeites, fotos
poeira

espelho
cabelo
olhos
vazio

pão.

A porta se abre, o caminho é o mesmo.
Fodase

8/22/2017

longe eu tento ser
longe, morar
mas resido aqui dentro de mim
no inferno mais quente a queimar

longe, onde ninguém é vivo
distante, de onde não dá pra voltar
mas moro aqui nesse vazio
na estética tosca, no mergulho ao mar

canta ao longe uma sinfonia
canta a morte ao me chamar
um canto lento quase sem ar
um canto que todos poderiam amar

eu teimo aqui em parecer vivo
sou um oco corpo em um pedestal
a casca vazia num apitar de tímpanos
um velho sujo no escuro abissal

8/21/2017

Apesar de não verem a luz do sol já há alguns meses, o mundo sintético em que viviam já não importava tanto quanto o que um sentia pelo o outro. A fome completa entre os dois fazia todo o resto deixar de importar.

Nessa altura do ano, o frio cortava suas peles e, com o pouco de crédito que conseguiam dispor, o único cômodo daquele apartamento (que mais parecia uma caixa de sapatos) que conseguiam permitir estar a uma temperatura maior era a sala.

Entraram em um beijo frenético no aparamento, mal fecharam a porta. Suas mãos passeavam um pelo outro, seus olhos se mantinham abertos, como se para tentar estudar cada textura do outro ser ali presente. Foram se despindo, mas um deles resolveu ser um pouco cauteloso. Levantou-se sedento por um instante (já estavam jogados ao sofá) e cobriu a tela com um pano. Os dispositivos móveis foram colocados numa gaveta e tudo mais desligado.

"Assim talvez eles não nos vejam", disse, num absurdo de desespero por privacidade.

Os beijos voltaram cada vez mais intensos. As mãos já tocavam o sexo um do outro e os olhos permaneciam abertos. Eles sabiam que nada daquilo era real, que tudo era uma verdade montada por uma grande empresa que cobrava a cada um deles um trabalho árduo em desenvolvimento tecnológico para que não fossem colocados em "coma", num estado de suspensão onde o corpo permanece vivo, mas a mente, em um estado de inexistência. Não sabiam sequer se o outro era real, algo que existia fisicamente em algum lugar do universo, ou se era apenas mais uma personalidade simulada que tinha algum objetivo específico.

A paranóia dos anos 1990, década essa que certamente não era a correta, que não era senão uma mentira dentro de uma mentira, era a doença entre os jovens dessa geração.

Nus, iniciaram um sexo oral mútuo, abocanhando vorazmente o sexo do outro, em meio a gemidos e agarrões, buscavam apenas pelo orgasmo mais forte, aquilo que os desligaria por milésimos de segundo e os levariam a um paraíso ainda em vida.

Nenhum deles precisava se importar com doenças, elas não existiam mais. Ninguém também se importava com fertilidade, isso não fazia mais sentido. No ano simulado, tudo podia ser perfeito, se pudesse ser pago.
Os sexos se uniram, sem proteção, pele e pele em um atrito sôfrego onde cada milímetro de toque parecia uma eternidade. Começaram a gemer alto e isso dava a cada um deles a certeza de que aquele momento era o melhor momento de todos. Palavras sujas começaram a ser ditas. "Goza pra mim" tornou-se um refrão. Seus cabelos estavam desgrenhados, suas maquiagens, borradas. O suor fazia parecer que o frio lá de fora não importava mais e fazia com que suas peles deslizassem, o que facilitava o movimento cada vez mais animalesco da foda.

Em um instante de contração muscular desordenada e mútua, gozaram forte sem fechar os olhos, ainda estudando o corpo um do outro a cada instante.

Caíram lado a lado, ofegantes. As telas escondidas, a privacidade era um ponto de interrogação. Ninguém deveria saber deles, mas eles sabiam que qualquer um já deveria saber.

Voltaram a acordar na manhã seguinte, sem sol, sem som (até que se ligasse os ouvidos), sem sabor e sem cheiro.

A vida apenas fez sentido naquele momento e agora retornava para a sua rotina rodeada de lixo. Uma escravidão sem a liberdade da morte, sem a possibilidade de uma segunda chance, sem curvas ou encruzilhadas. A vida havia se tornado um produto, e era preciso ter lucro.


1/22/2017

Vazio
O significado de tudo é o mesmo que nada


9/27/2016

eu vejo pontos que piscam pelo ar
suspensos em sua estranha existência
dentro e fora da minha realidade
não há verdade, nem há lembrança

eu sinto dores pelo corpo a cada respirar
e quando eu paro e penso e vejo
sinto que não há dor nenhuma no corpo em que me deito
a não ser em minha alma, a mente, que gosto de chamar

mente pra mim mesmo o corpo que habito
planta a semente do que eu acho que acredito
e me fecha entre muros de pele, cabelo, remela e sais

e na fé de ter fé no que eu sinto que acredito
visto o corpo morto que sinto que habito
e aprisiono a mente, a alma, numa existência de não mais

9/02/2016

nossos antepassados tinham um objetivo básico em suas existências: se manterem vivos.
seus dias e noites estavam permeados pelo propósito de encontrar abrigo, fugir dos predadores, encontrar alimentos, driblar doenças e perpetuar a porra da espécie.

o que somos nós agora dentro dessa vida em uma sociedade mais organizada, com leis, deveres, facilidade de comer, de se curar, de se abrigar, de procriar? crianças mimadas que reclamam da porra toda?

não, nós somos o resultado fodido de um processo de seleção natural que nos fez chegar até aqui e agora, na virada da maré, não sabemos como agir.

foda-se

a mudança de paradigma vai levar anos para acontecer. muitos. mas nós estamos sentindo ela na pele porque a revolução tecnológica e científica foram absurdas nesses anos em que vivemos.

e nossas vidas hoje são permeadas pela busca incessante por uma sobrevivência que já temos. trabalhamos 12h por dia, 16, 18... ou mergulhamos na inércia de merda de trabalhar o caralho de 8h por dia, ver novela, e deitar cedo.

tudo é uma merda e a culpa não é minha. é nossa.