Ofereça o doce fácil da polpa, mas nunca deixe de oferecer o poder germinativo e a dureza da semente.
2/20/2018
8/23/2017
.
livros na estante
eletro eletrônicos, discos
enfeites, fotos
poeira
espelho
cabelo
olhos
vazio
pão.
A porta se abre, o caminho é o mesmo.
Fodase
8/22/2017
longe eu tento ser
longe, morar
mas resido aqui dentro de mim
no inferno mais quente a queimar
longe, onde ninguém é vivo
distante, de onde não dá pra voltar
mas moro aqui nesse vazio
na estética tosca, no mergulho ao mar
canta ao longe uma sinfonia
canta a morte ao me chamar
um canto lento quase sem ar
um canto que todos poderiam amar
eu teimo aqui em parecer vivo
sou um oco corpo em um pedestal
a casca vazia num apitar de tímpanos
um velho sujo no escuro abissal
longe, morar
mas resido aqui dentro de mim
no inferno mais quente a queimar
longe, onde ninguém é vivo
distante, de onde não dá pra voltar
mas moro aqui nesse vazio
na estética tosca, no mergulho ao mar
canta ao longe uma sinfonia
canta a morte ao me chamar
um canto lento quase sem ar
um canto que todos poderiam amar
eu teimo aqui em parecer vivo
sou um oco corpo em um pedestal
a casca vazia num apitar de tímpanos
um velho sujo no escuro abissal
8/21/2017
Apesar de não verem a luz do sol já há alguns meses, o mundo sintético em que viviam já não importava tanto quanto o que um sentia pelo o outro. A fome completa entre os dois fazia todo o resto deixar de importar.
Nessa altura do ano, o frio cortava suas peles e, com o pouco de crédito que conseguiam dispor, o único cômodo daquele apartamento (que mais parecia uma caixa de sapatos) que conseguiam permitir estar a uma temperatura maior era a sala.
Entraram em um beijo frenético no aparamento, mal fecharam a porta. Suas mãos passeavam um pelo outro, seus olhos se mantinham abertos, como se para tentar estudar cada textura do outro ser ali presente. Foram se despindo, mas um deles resolveu ser um pouco cauteloso. Levantou-se sedento por um instante (já estavam jogados ao sofá) e cobriu a tela com um pano. Os dispositivos móveis foram colocados numa gaveta e tudo mais desligado.
"Assim talvez eles não nos vejam", disse, num absurdo de desespero por privacidade.
Os beijos voltaram cada vez mais intensos. As mãos já tocavam o sexo um do outro e os olhos permaneciam abertos. Eles sabiam que nada daquilo era real, que tudo era uma verdade montada por uma grande empresa que cobrava a cada um deles um trabalho árduo em desenvolvimento tecnológico para que não fossem colocados em "coma", num estado de suspensão onde o corpo permanece vivo, mas a mente, em um estado de inexistência. Não sabiam sequer se o outro era real, algo que existia fisicamente em algum lugar do universo, ou se era apenas mais uma personalidade simulada que tinha algum objetivo específico.
A paranóia dos anos 1990, década essa que certamente não era a correta, que não era senão uma mentira dentro de uma mentira, era a doença entre os jovens dessa geração.
Nus, iniciaram um sexo oral mútuo, abocanhando vorazmente o sexo do outro, em meio a gemidos e agarrões, buscavam apenas pelo orgasmo mais forte, aquilo que os desligaria por milésimos de segundo e os levariam a um paraíso ainda em vida.
Nenhum deles precisava se importar com doenças, elas não existiam mais. Ninguém também se importava com fertilidade, isso não fazia mais sentido. No ano simulado, tudo podia ser perfeito, se pudesse ser pago.
Os sexos se uniram, sem proteção, pele e pele em um atrito sôfrego onde cada milímetro de toque parecia uma eternidade. Começaram a gemer alto e isso dava a cada um deles a certeza de que aquele momento era o melhor momento de todos. Palavras sujas começaram a ser ditas. "Goza pra mim" tornou-se um refrão. Seus cabelos estavam desgrenhados, suas maquiagens, borradas. O suor fazia parecer que o frio lá de fora não importava mais e fazia com que suas peles deslizassem, o que facilitava o movimento cada vez mais animalesco da foda.
Em um instante de contração muscular desordenada e mútua, gozaram forte sem fechar os olhos, ainda estudando o corpo um do outro a cada instante.
Caíram lado a lado, ofegantes. As telas escondidas, a privacidade era um ponto de interrogação. Ninguém deveria saber deles, mas eles sabiam que qualquer um já deveria saber.
Voltaram a acordar na manhã seguinte, sem sol, sem som (até que se ligasse os ouvidos), sem sabor e sem cheiro.
A vida apenas fez sentido naquele momento e agora retornava para a sua rotina rodeada de lixo. Uma escravidão sem a liberdade da morte, sem a possibilidade de uma segunda chance, sem curvas ou encruzilhadas. A vida havia se tornado um produto, e era preciso ter lucro.
Nessa altura do ano, o frio cortava suas peles e, com o pouco de crédito que conseguiam dispor, o único cômodo daquele apartamento (que mais parecia uma caixa de sapatos) que conseguiam permitir estar a uma temperatura maior era a sala.
Entraram em um beijo frenético no aparamento, mal fecharam a porta. Suas mãos passeavam um pelo outro, seus olhos se mantinham abertos, como se para tentar estudar cada textura do outro ser ali presente. Foram se despindo, mas um deles resolveu ser um pouco cauteloso. Levantou-se sedento por um instante (já estavam jogados ao sofá) e cobriu a tela com um pano. Os dispositivos móveis foram colocados numa gaveta e tudo mais desligado.
"Assim talvez eles não nos vejam", disse, num absurdo de desespero por privacidade.
Os beijos voltaram cada vez mais intensos. As mãos já tocavam o sexo um do outro e os olhos permaneciam abertos. Eles sabiam que nada daquilo era real, que tudo era uma verdade montada por uma grande empresa que cobrava a cada um deles um trabalho árduo em desenvolvimento tecnológico para que não fossem colocados em "coma", num estado de suspensão onde o corpo permanece vivo, mas a mente, em um estado de inexistência. Não sabiam sequer se o outro era real, algo que existia fisicamente em algum lugar do universo, ou se era apenas mais uma personalidade simulada que tinha algum objetivo específico.
A paranóia dos anos 1990, década essa que certamente não era a correta, que não era senão uma mentira dentro de uma mentira, era a doença entre os jovens dessa geração.
Nus, iniciaram um sexo oral mútuo, abocanhando vorazmente o sexo do outro, em meio a gemidos e agarrões, buscavam apenas pelo orgasmo mais forte, aquilo que os desligaria por milésimos de segundo e os levariam a um paraíso ainda em vida.
Nenhum deles precisava se importar com doenças, elas não existiam mais. Ninguém também se importava com fertilidade, isso não fazia mais sentido. No ano simulado, tudo podia ser perfeito, se pudesse ser pago.
Os sexos se uniram, sem proteção, pele e pele em um atrito sôfrego onde cada milímetro de toque parecia uma eternidade. Começaram a gemer alto e isso dava a cada um deles a certeza de que aquele momento era o melhor momento de todos. Palavras sujas começaram a ser ditas. "Goza pra mim" tornou-se um refrão. Seus cabelos estavam desgrenhados, suas maquiagens, borradas. O suor fazia parecer que o frio lá de fora não importava mais e fazia com que suas peles deslizassem, o que facilitava o movimento cada vez mais animalesco da foda.
Em um instante de contração muscular desordenada e mútua, gozaram forte sem fechar os olhos, ainda estudando o corpo um do outro a cada instante.
Caíram lado a lado, ofegantes. As telas escondidas, a privacidade era um ponto de interrogação. Ninguém deveria saber deles, mas eles sabiam que qualquer um já deveria saber.
Voltaram a acordar na manhã seguinte, sem sol, sem som (até que se ligasse os ouvidos), sem sabor e sem cheiro.
A vida apenas fez sentido naquele momento e agora retornava para a sua rotina rodeada de lixo. Uma escravidão sem a liberdade da morte, sem a possibilidade de uma segunda chance, sem curvas ou encruzilhadas. A vida havia se tornado um produto, e era preciso ter lucro.
7/15/2017
9/27/2016
eu vejo pontos que piscam pelo ar
suspensos em sua estranha existência
dentro e fora da minha realidade
não há verdade, nem há lembrança
eu sinto dores pelo corpo a cada respirar
e quando eu paro e penso e vejo
sinto que não há dor nenhuma no corpo em que me deito
a não ser em minha alma, a mente, que gosto de chamar
mente pra mim mesmo o corpo que habito
planta a semente do que eu acho que acredito
e me fecha entre muros de pele, cabelo, remela e sais
e na fé de ter fé no que eu sinto que acredito
visto o corpo morto que sinto que habito
e aprisiono a mente, a alma, numa existência de não mais
suspensos em sua estranha existência
dentro e fora da minha realidade
não há verdade, nem há lembrança
eu sinto dores pelo corpo a cada respirar
e quando eu paro e penso e vejo
sinto que não há dor nenhuma no corpo em que me deito
a não ser em minha alma, a mente, que gosto de chamar
mente pra mim mesmo o corpo que habito
planta a semente do que eu acho que acredito
e me fecha entre muros de pele, cabelo, remela e sais
e na fé de ter fé no que eu sinto que acredito
visto o corpo morto que sinto que habito
e aprisiono a mente, a alma, numa existência de não mais
9/02/2016
nossos antepassados tinham um objetivo básico em suas existências: se manterem vivos.
seus dias e noites estavam permeados pelo propósito de encontrar abrigo, fugir dos predadores, encontrar alimentos, driblar doenças e perpetuar a porra da espécie.
o que somos nós agora dentro dessa vida em uma sociedade mais organizada, com leis, deveres, facilidade de comer, de se curar, de se abrigar, de procriar? crianças mimadas que reclamam da porra toda?
não, nós somos o resultado fodido de um processo de seleção natural que nos fez chegar até aqui e agora, na virada da maré, não sabemos como agir.
foda-se
a mudança de paradigma vai levar anos para acontecer. muitos. mas nós estamos sentindo ela na pele porque a revolução tecnológica e científica foram absurdas nesses anos em que vivemos.
e nossas vidas hoje são permeadas pela busca incessante por uma sobrevivência que já temos. trabalhamos 12h por dia, 16, 18... ou mergulhamos na inércia de merda de trabalhar o caralho de 8h por dia, ver novela, e deitar cedo.
tudo é uma merda e a culpa não é minha. é nossa.
seus dias e noites estavam permeados pelo propósito de encontrar abrigo, fugir dos predadores, encontrar alimentos, driblar doenças e perpetuar a porra da espécie.
o que somos nós agora dentro dessa vida em uma sociedade mais organizada, com leis, deveres, facilidade de comer, de se curar, de se abrigar, de procriar? crianças mimadas que reclamam da porra toda?
não, nós somos o resultado fodido de um processo de seleção natural que nos fez chegar até aqui e agora, na virada da maré, não sabemos como agir.
foda-se
a mudança de paradigma vai levar anos para acontecer. muitos. mas nós estamos sentindo ela na pele porque a revolução tecnológica e científica foram absurdas nesses anos em que vivemos.
e nossas vidas hoje são permeadas pela busca incessante por uma sobrevivência que já temos. trabalhamos 12h por dia, 16, 18... ou mergulhamos na inércia de merda de trabalhar o caralho de 8h por dia, ver novela, e deitar cedo.
tudo é uma merda e a culpa não é minha. é nossa.
7/09/2016
há anos eu escrevo nesse blog.
ha mais de uma década eu iniciei os posts. o próprio blog migrou de um lugar para o outro, não me lembro bem, e eu perdi alguns posts.
olhando esse blog novamente, percebo quem eu fui e sou.
eu não consigo imaginar uma vida sem ser depressivo.
isso sou eu.
viver uma vida assim é quase tão limitante quando ter uma deficiência física. é uma faca cravada na sua alegria que te impede de ser feliz. a felicidade só dura alguns segs.
já se foram 35 anos assim. não sei o que vem por aí.
não quero pensar.
não quero pena
não quero mais ajuda
quando eu fico bêbado, me sinto melhor
em geral, me sinto péssimo
não há como entender, sou apenas eu
sinto que está pior dessa vez. mas pode ser só impressão.
eu queria poder viver.
ha mais de uma década eu iniciei os posts. o próprio blog migrou de um lugar para o outro, não me lembro bem, e eu perdi alguns posts.
olhando esse blog novamente, percebo quem eu fui e sou.
eu não consigo imaginar uma vida sem ser depressivo.
isso sou eu.
viver uma vida assim é quase tão limitante quando ter uma deficiência física. é uma faca cravada na sua alegria que te impede de ser feliz. a felicidade só dura alguns segs.
já se foram 35 anos assim. não sei o que vem por aí.
não quero pensar.
não quero pena
não quero mais ajuda
quando eu fico bêbado, me sinto melhor
em geral, me sinto péssimo
não há como entender, sou apenas eu
sinto que está pior dessa vez. mas pode ser só impressão.
eu queria poder viver.
6/08/2016
é interessante perceber que não me sinto de lugar algum agora. estou deslocado do tempo, deslocado da existência. não me sinto de família alguma, só alguém só, que recebe como caridade algo de quem está perto.
é interessante perceber que não me sinto mal com isso. é uma constatação, não uma depressão.
hoje eu acho que comecei a morrer. eu percebi que não posso ser eu, então, decidi morrer.
não pertencendo a lugar algum, morrer não me muda nada. apenas me liga a algum chão onde minhas memórias podem se desintegrar.
amanhã acordo morto. quem vai abrir os olhos e tomar o café não serei eu. uma sombra de mim, melhor que eu, mas apodrecendo por dentro a cada dia.
cansar de viver é cansar de tentar. e perceber que tudo ao meu redor não me pertence me mostrou que eu já estava passando da hora.
nada reconheço como parte de mim.
que esse eu, que eu achava ser real, deixe logo de existir.
é interessante perceber que não me sinto mal com isso. é uma constatação, não uma depressão.
hoje eu acho que comecei a morrer. eu percebi que não posso ser eu, então, decidi morrer.
não pertencendo a lugar algum, morrer não me muda nada. apenas me liga a algum chão onde minhas memórias podem se desintegrar.
amanhã acordo morto. quem vai abrir os olhos e tomar o café não serei eu. uma sombra de mim, melhor que eu, mas apodrecendo por dentro a cada dia.
cansar de viver é cansar de tentar. e perceber que tudo ao meu redor não me pertence me mostrou que eu já estava passando da hora.
nada reconheço como parte de mim.
que esse eu, que eu achava ser real, deixe logo de existir.
5/17/2016
4/29/2016
4/11/2016
1/23/2016
Quando eu estava morrendo, tudo se coloriu da minha cor predileta. Como se eu estivesse acabado de colocar óculos especiais, que tornassem tudo perfeito visualmente. Cada sombra, cada linha de cada rosto tornou-se uma textura de pura beleza, dentro da minha cor predileta.
Eu estava deitado, olhava inclinado para as pessoas. Um cheiro de árvores invadiu a sala e, junto com o que eu estava vendo, construiu algo que em nenhum momento eu conseguira. E, junto com o cheiro, o som de ondas à distância de um mar poético em cada um de seus movimentos. O mar se aproximou de mim e agora tudo estava colorido, perfumado e musical.
Eu pude ver e ouvir a voz de pessoas que eu sempre amei mais uma vez. Estavam sorrindo, mas o sorriso espelhava a tristeza e eu não conseguiria nunca dizer o quão delicioso estava sendo morrer. Eles não precisavam sentir essa tristeza. Naquele momento eu percebi que a morte é o presente da vida, o ponto final que dá todo o significado a uma extensa poesia.
Iniciamos nosso texto tendo nossas mãos seguradas pelas dos nossos pais. As letras saem tortas, tremidas e há sempre ali o resultado de mais de uma mente escrevendo em uníssono. Com o tempo, aprendemos a escrever cada vez mais sozinhos. Até que um dia não queremos mais a ajuda de ninguém e nossos versos mudam o estilo drasticamente. Os meus se encheram de revolta, de dúvida, de tristeza, de uma solidão que só eu mesmo sentia.
E com o passar dos dias eu encontrei alguém para me ajudar a escrever cada linha do que ainda faltava dessa poesia. Alguns versos agora saiam sem estilo, uns, sem métrica, outros, péssimos. A maioria, no entanto, refletia um detalhamento artístico que eu nunca conseguiria sozinho. Lindas estrofes em perfeita sintonia.
O tempo passou e eu percebi muitas vezes que havia me perdido. Eu nunca conseguia entender o motivo da minha existência. E quando eu me deitei, escrevi os versos mais amargos que já havia escrito.
Mas naquele exato momento em que eu estava morrendo, tudo se explicou. Do entendimento do nascimento aos planetas em todas as constelações. Da existência da vida ao enigma da morte. E eu percebi que eu nunca estive tão feliz na vida. Não havia dor, não havia medo. Só o verde nas pessoas, os aromas e os sons. E tudo ficou longe e eu não mais me importei com nada.
E agora, descrevendo esse momento, olho ao meu redor e percebo que nada realmente importa muito. Preciso viver, mas isso não tem importância. Cada passo dado, cada verso escrito, são apenas substância necessária para construir o caminho para o ponto final.
Levanto-me. Vou à geladeira buscar mais uma cerveja. Eu estou sozinho, gravando vocais para uma música. E isso é apenas substância, algo para se fazer, enquanto espero pelo ponto final.
Eu estava deitado, olhava inclinado para as pessoas. Um cheiro de árvores invadiu a sala e, junto com o que eu estava vendo, construiu algo que em nenhum momento eu conseguira. E, junto com o cheiro, o som de ondas à distância de um mar poético em cada um de seus movimentos. O mar se aproximou de mim e agora tudo estava colorido, perfumado e musical.
Eu pude ver e ouvir a voz de pessoas que eu sempre amei mais uma vez. Estavam sorrindo, mas o sorriso espelhava a tristeza e eu não conseguiria nunca dizer o quão delicioso estava sendo morrer. Eles não precisavam sentir essa tristeza. Naquele momento eu percebi que a morte é o presente da vida, o ponto final que dá todo o significado a uma extensa poesia.
Iniciamos nosso texto tendo nossas mãos seguradas pelas dos nossos pais. As letras saem tortas, tremidas e há sempre ali o resultado de mais de uma mente escrevendo em uníssono. Com o tempo, aprendemos a escrever cada vez mais sozinhos. Até que um dia não queremos mais a ajuda de ninguém e nossos versos mudam o estilo drasticamente. Os meus se encheram de revolta, de dúvida, de tristeza, de uma solidão que só eu mesmo sentia.
E com o passar dos dias eu encontrei alguém para me ajudar a escrever cada linha do que ainda faltava dessa poesia. Alguns versos agora saiam sem estilo, uns, sem métrica, outros, péssimos. A maioria, no entanto, refletia um detalhamento artístico que eu nunca conseguiria sozinho. Lindas estrofes em perfeita sintonia.
O tempo passou e eu percebi muitas vezes que havia me perdido. Eu nunca conseguia entender o motivo da minha existência. E quando eu me deitei, escrevi os versos mais amargos que já havia escrito.
Mas naquele exato momento em que eu estava morrendo, tudo se explicou. Do entendimento do nascimento aos planetas em todas as constelações. Da existência da vida ao enigma da morte. E eu percebi que eu nunca estive tão feliz na vida. Não havia dor, não havia medo. Só o verde nas pessoas, os aromas e os sons. E tudo ficou longe e eu não mais me importei com nada.
E agora, descrevendo esse momento, olho ao meu redor e percebo que nada realmente importa muito. Preciso viver, mas isso não tem importância. Cada passo dado, cada verso escrito, são apenas substância necessária para construir o caminho para o ponto final.
Levanto-me. Vou à geladeira buscar mais uma cerveja. Eu estou sozinho, gravando vocais para uma música. E isso é apenas substância, algo para se fazer, enquanto espero pelo ponto final.
12/18/2015
preparar o solo
saciar o chão
se curvar ao tempo certo
comungar com a imensidão
fecundar a terra
enterrar os gãos
se encher de esperanças
ter fé que deus é um cristão
aguardar com fome
deitar e dormir no chão
só raízes em nove bocas
folhas e caule no coração
dedos cegos cavam a cova
tentam dizer a razão
horizontes livres pra ver
sem árvores contra a visão
O que o
vento traz
pra preencher os vazios é leve demais
O que o
vento traz
pra nutrir desespero já é tarde demais
nov-dez de 2011
saciar o chão
se curvar ao tempo certo
comungar com a imensidão
fecundar a terra
enterrar os gãos
se encher de esperanças
ter fé que deus é um cristão
aguardar com fome
deitar e dormir no chão
só raízes em nove bocas
folhas e caule no coração
dedos cegos cavam a cova
tentam dizer a razão
horizontes livres pra ver
sem árvores contra a visão
O que o
vento traz
pra preencher os vazios é leve demais
O que o
vento traz
pra nutrir desespero já é tarde demais
nov-dez de 2011
12/03/2015
O problema da vida é formato que demos a ela.
A culpa do aumento dos suicídios desde os anos 70 está na verdade no formato que demos a vida.
Um formato que não se encaixa nos padrões de felicidade de ninguém, o que faz com que muitos queiram fugir da vida. Isso é muito triste e a culpa é nossa.
O trabalho está relacionado intimamente, na nossa sociedade, com o quão importante você é. Isso faz com que você trave a sua luta constante para justificar que é sim um ser humano de qualidade, que alcançou altos padrões profissionais, que ganha muito dinheiro.
O mais interessante é ver que as pessoas lutam suas vidas para atingir esse patamar. Nunca estão satisfeitas com o que tem agora e, obviamente, nunca estão felizes.
Quando atingem o patamar elevado, tornam-se muitas vezes amargos, incapazes de sentirem a suavidade de algo mais voltado paras os sentimentos, provavelmente por terem que afogar os seus próprios para poderem chegar a esses elevados patamares profissionais. Seus únicos prazeres se tornam materiais. Consumo. Comprar o que há de mais caro, mesmo que o mais caro não signifique o melhor. Viajar para os melhores lugares, mesmo que não se divirta, mas que exponha nas redes sociais o quão capaz de gastar esse dinheiro você foi.
A vida passa, desgastada, amarga, distante (num futuro que nunca chega). Não percebemos o calor do hoje. Não percebemos o silêncio que existe quando calamos nossas mentes. A paz. Não percebemos que o que temos que fazer é sermos pessoas felizes.
Se você é um médico, seja porque ama ajudar pessoas.
Se você é um pesquisador, seja porque quer produzir conhecimento para mudar algo para melhor.
Se você é um professor, seja porque ama seus alunos e ama ensinar.
Se você é um (a) don(a/o) de casa, seja porque isso te preenche e isso é importante na vida de todos ao seu redor.
Se você é um lixeiro, seja porque ama ver que seu trabalho é essencial e com ele a vida funciona.
Se você é um artista, seja porque a sua sensibilidade colore o mundo de uma forma que ninguém pôde perceber além de você e, ao expor sua arte, você compartilha com os outros a sua forma, que se torna coletiva.
Nós crescemos o que deveríamos crescer. Agora, precisamos viver.
A culpa do aumento dos suicídios desde os anos 70 está na verdade no formato que demos a vida.
Um formato que não se encaixa nos padrões de felicidade de ninguém, o que faz com que muitos queiram fugir da vida. Isso é muito triste e a culpa é nossa.
O trabalho está relacionado intimamente, na nossa sociedade, com o quão importante você é. Isso faz com que você trave a sua luta constante para justificar que é sim um ser humano de qualidade, que alcançou altos padrões profissionais, que ganha muito dinheiro.
O mais interessante é ver que as pessoas lutam suas vidas para atingir esse patamar. Nunca estão satisfeitas com o que tem agora e, obviamente, nunca estão felizes.
Quando atingem o patamar elevado, tornam-se muitas vezes amargos, incapazes de sentirem a suavidade de algo mais voltado paras os sentimentos, provavelmente por terem que afogar os seus próprios para poderem chegar a esses elevados patamares profissionais. Seus únicos prazeres se tornam materiais. Consumo. Comprar o que há de mais caro, mesmo que o mais caro não signifique o melhor. Viajar para os melhores lugares, mesmo que não se divirta, mas que exponha nas redes sociais o quão capaz de gastar esse dinheiro você foi.
A vida passa, desgastada, amarga, distante (num futuro que nunca chega). Não percebemos o calor do hoje. Não percebemos o silêncio que existe quando calamos nossas mentes. A paz. Não percebemos que o que temos que fazer é sermos pessoas felizes.
Se você é um médico, seja porque ama ajudar pessoas.
Se você é um pesquisador, seja porque quer produzir conhecimento para mudar algo para melhor.
Se você é um professor, seja porque ama seus alunos e ama ensinar.
Se você é um (a) don(a/o) de casa, seja porque isso te preenche e isso é importante na vida de todos ao seu redor.
Se você é um lixeiro, seja porque ama ver que seu trabalho é essencial e com ele a vida funciona.
Se você é um artista, seja porque a sua sensibilidade colore o mundo de uma forma que ninguém pôde perceber além de você e, ao expor sua arte, você compartilha com os outros a sua forma, que se torna coletiva.
Nós crescemos o que deveríamos crescer. Agora, precisamos viver.
11/10/2015
a tristeza, o vazio, a incapacidade da felicidade de forma plena, o foco nos problemas (dando a eles um peso maior do que o real), o pessimismo, a paranóia, a sensação da fragilidade do corpo, o medo da morte prematura, o desânimo, a vontade de se esconder, a vontade de ir pra longe, a auto piedade, o ato de esperar a piedade dos outros, a sensação de ser incapaz, a certeza de ser um merda, a culpa por estar fazendo tudo errado, a falta de perspectiva de melhora real. a certeza de que irei morrer um dia e, que até lá, continuarei a ser isso. alguém pela metade ou menos da metade.
11/04/2015
É curioso perceber que de uma forma ou de outra, muitos ao meu redor estão sofrendo os problemas da depressão e da ansiedade.
Temos tanta informação que nossos corpos e mentes não estão habituados a tal.
A comparação da sua vida com as vidas dos amigos que postam no instagram parecem gritar alto que a sua vida não é tão legal. Deve-se produzir mais, crescer mais, trabalhar mais. Um dia alcançaremos a honra de podermos descansar com a mente livre de preocupações com produção.
No momento eu não estou tomando nenhum remédio para a ansiedade. Meus amigos estão. Eles conseguem melhorar assim, mas o complicado é que os sintomas retornam ao fim dos tratamentos.
Eu tenho procurado uma mínima paz mental tentando meditar. Agora, me preparo para retornar à Yoga. A disciplina que precisamos para que esses métodos funcionem é gigantesca.
Mas no fim, ainda sinto a angústia de trabalhar com algo que não quero mais pra mim. Gastando meus dias tentando estudar para avançar na carreira... o que, no dia em que funcionar, me proporcionarão a liberdade de um setor de trabalho que aparente não me quer e nem se importa com a minha presença.
Nossos valores estão virados de cabeça pra baixo. Somos uma geração intermediária e por isso, nos sentimos sem "casa", sem "abrigo". Vivemos o mundo da velocidade enquanto nossas raízes estão fincadas no analógico.
Tá tudo errado.
Temos tanta informação que nossos corpos e mentes não estão habituados a tal.
A comparação da sua vida com as vidas dos amigos que postam no instagram parecem gritar alto que a sua vida não é tão legal. Deve-se produzir mais, crescer mais, trabalhar mais. Um dia alcançaremos a honra de podermos descansar com a mente livre de preocupações com produção.
No momento eu não estou tomando nenhum remédio para a ansiedade. Meus amigos estão. Eles conseguem melhorar assim, mas o complicado é que os sintomas retornam ao fim dos tratamentos.
Eu tenho procurado uma mínima paz mental tentando meditar. Agora, me preparo para retornar à Yoga. A disciplina que precisamos para que esses métodos funcionem é gigantesca.
Mas no fim, ainda sinto a angústia de trabalhar com algo que não quero mais pra mim. Gastando meus dias tentando estudar para avançar na carreira... o que, no dia em que funcionar, me proporcionarão a liberdade de um setor de trabalho que aparente não me quer e nem se importa com a minha presença.
Nossos valores estão virados de cabeça pra baixo. Somos uma geração intermediária e por isso, nos sentimos sem "casa", sem "abrigo". Vivemos o mundo da velocidade enquanto nossas raízes estão fincadas no analógico.
Tá tudo errado.
9/04/2015
Em boa parte de nossas vidas é muito comum idealizar uma realidade, uma vida onde tudo segue o padrão da perfeição de acordo com nossas preferências. A vida passa e percebemos que não há nada de sonho, nada de poético ou bonito em viver dia após dia.
O que há de alegria é efêmero. O que há de sonho é inatingível.
Sonhos uma vida multicor, vivemos uma vida cinza.
O que há de alegria é efêmero. O que há de sonho é inatingível.
Sonhos uma vida multicor, vivemos uma vida cinza.
8/26/2015
Grão
Deixe-me sóbrio
Pra ver o dia
Que nasce depois
Dessa vida
O rio que se estende
Corre sem direção
E nunca encontra
As ondas do mar
Às asas abertas
Que não sustentam o vôo
Me precipitam
Na gravidade dessa terra
E em todos nós
Apenas a pena
Que se soltou no céu
Está em nossos peitos
Ninguém vai te temer
Ninguém vai te amar
Ninguém vai te salvar
Ninguém vai te perceber
Deixe-me sóbrio
Pra ver o dia
Que nasce depois
Dessa vida
O rio que se estende
Corre sem direção
E nunca encontra
As ondas do mar
Às asas abertas
Que não sustentam o vôo
Me precipitam
Na gravidade dessa terra
E em todos nós
Apenas a pena
Que se soltou no céu
Está em nossos peitos
Ninguém vai te temer
Ninguém vai te amar
Ninguém vai te salvar
Ninguém vai te perceber
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