6/22/2009

GABRIEL ARAÚJO - Gabriel Araújo (2009 - Independente)



Numa dessas tardes de domingo em que você só pensa em relaxar, fui para o computador olhar e-mails e o twitter enquanto tomava um whiskey e buscava algo para ouvir. Parei no disco que havia acabado de receber, o auto-intitulado de GABRIEL ARAÚJO. A primeira coisa que observei foi a belíssima capa (cunhada pelo fera Bruno Borges), um trabalho de arte gráfica que ilustra bem o que se pode encontrar dentro do disco. Ok, coloquei a bolacha pra rodar e fui ficando intrigado com a intro. Um violão desafinado sendo escovado e tendo suas cordas esticadas para chegar a afinação. Logo em seguida, "Olhe pra'qui" iniciou seus acordes demostrando um trabalho harmônico complexo e muito bem composto. Texturas de sons aparecem ao fundo aumentando a profundidade da canção que demonstra um misto entre o experimentalismo, violão erudito e o alternativo.
A quase minimalista "Casamento Judeu" impressiona a cada momento ficando cada vez mais bela e mais tensa e demonstrando como apenas um violão torna-se o bastante para uma canção como essa. "Dia de vento" é com certeza uma das minhas prediletas. Suas estruturas complexas levam qualquer ouvinte a uma viagem de 11 minutos sem volta. Entramos então em "Cronologia Suspeita", tema desenvolvido em duas partes. A primeira é climática e hipnótica, com seu dedilhado arrastado e ruídos ao fundo é mesmo uma canção com cara de trilha sonora. Já a segunda parte é a canção mais atípica do álbum com arranjos de sintetizadores e sopro muito bem colocados. Uma atmosfera de jazz contemporâneo (que lembra grupos como The Cinematic Orchestra por exemplo) vai te embalando enquanto linhas de baixo vão dançando e rimando com sutis guitarras ao fundo. Essa canção demonstra claramente o potencial do compositor e a maturidade como produtor alcançada por Gabriel Araújo.
Seguindo em frente, mas um momento hipnótico e de grande beleza vai aparecendo em "Panorâmica da Ponte", faixa de 10 minutos que vai te deixando em estado letárgico, como uma mantra sem palavras até que você acorda no "Fim". Essa última faixa é na verdade uma espécie de resposta ao que aconteceu na "intro". Aqui, as cordas do violão são gradualmente folgadas até a completa desafinação.
Em resumo, minha tarde de domingo tornou-se uma viagem progressiva, exotérica, minimalista... Recomendadíssimo como trilha sonora dos momentos de reflexão e leitura. Gabriel Araújo está de parabéns! Já estou aguardando os próximos!

6/18/2009

ninguém é perfeito




ninguém é perfeito
ninguém é perfeito
ninguém é perfeito
...

6/17/2009

Acontece o seguinte:
a vida é uma equação matemática com infinitas variáveis. Se cada uma dessas variáveis é um universo paralelo, todos os dias, ou melhor, a cada segundo, uma nova infinidade de universos paralelos surge.

Imagine que toda a sua vida num desses universos é exatamente como se tudo desse certo. Imagine que aquele sonho elo qual você sempre lutou se realizou e você desfruta dele dia-a-dia com felicidade. Imagine que aquelas pessoas que puxam você pra trás tentando te fixar num único lugar da caminhada simplesmente se tornassem grandes impulsionadoras da sua vida.

Eu me pego imaginando isso várias vezes. Agora mesmo, momentos antes de ligar a tela do computador e iniciar esse texto eu estava imaginando como seria minha vida se esse fosse o universo onde tudo dá certo.

Diante de infinitas possibilidades (assim como as que acabaram por formar moléculas que resultaram nas primeiras células) eu acredito que exista um universo assim. Sem idiotas no governo, sem miséria na África, sem crime... sem doenças.

Lá eu seria um músico vivendo de sua própria música e sendo feliz a cada acorde. Lá as pessoas me impulsionariam a continuar e não tentariam a cada passo me passar uma rasteira. Lá todos conseguiriam ser o que quisessem e seriam além disso felizes.

Mas, vivemos um universo imperfeito, assimétrico, inconseqüente e doloroso.
Dizem que pra tudo há um motivo, será que há porque existirmos assim?

6/03/2009

2 - ...

Sentado a frente da sua tela de computador, Gregory analisa cada detalhe do e-mail que acabara de receber. Aparentemente mais um texto sem importância, uma propaganda qualquer chamada de Spam. O problema era que esse spam tinha uma quantidade enorme de símbolos e informações específicas a seu respeito, informações que nem mesmo sua família e seus amigos conheciam.
- Isso só pode ser uma coincidência – pensava em voz alta.
Era tão absurdo que seus segredos agora estivessem ali sendo expostos pra ele mesmo que, a cada frase lida, sentia uma forte pontada de pânico aumentar.
Levantou-se absorto com a mão esquerda sobre a boca como se estivesse tentando conter qualquer tipo de frase que poderia estar sendo observada, pois ele no mínimo estava sendo vigiado por alguém ou alguma coisa. Olhou para as cortinas do seu apartamento e pensou em buscar microfones, câmeras ou qualquer tipo de evidência de ele não era o único ali naquele momento.
Gregory iniciou uma busca desesperada pelo aposento em que estava. Iluminado apenas pela tela do computador, esvaziou gavetas, revirou armários, levantou móveis e nada encontrou. O nervosismo crescia a cada momento. Olhou para garrafa de Chivas Regal 12 anos que descansava quieta sobre a escrivaninha, encheu um copo em uma dose quase tripla e engoliu tudo de uma única vez. Havia esperança nele de que o Whiskey pudesse acalmar sua mente e fazer com que ele pudesse raciocinar melhor e descobrir o que estava acontecendo. Sentou-se novamente olhando fixamente o e-mail causador de tamanha reação e começou a pensar. Não adiantava buscar em nenhum lugar evidências de que estivesse de alguma forma sob investigação pois o conteúdo do e-mail nunca havia sido dito em voz alta. Apenas ele sabia.
Pensou então nos dias que perderia quando aquelas informações se tornassem públicas. Nas alegrias que deixaria de ter por ser alguém como ele era. Mas ele não tinha culpa, apenas havia se levantado da cama um dia e descoberto o sentido da sua vida. Ele se sentia culpado enquanto repetia para si mesmo que não deveria se sentir assim já que nunca havia procurado por isso.
Concluiu que não havia forma de se manter vivo enquanto o mundo ficava ali, horrorizado por aquelas descobertas.
Gregory abriu as janelas e olhou por cima a noite de Manhattan. Na mão esquerda a garrafa de Chivas aberta e já perto do fim contrabalançava seu equilíbrio enquanto bêbado, se pendurava do lado de fora e contemplava o chão a muitos metros de distância. Ele não conseguia entender, mas era melhor não tentar mais. Fechou os olhos e notou algumas gotas de chuva que começavam a cair e decidiu que nunca mais tornaria a ver o mundo, pois aquela escuridão era muito mais confortável que as luzes cruéis da vida. Sorveu os últimos goles como se fosse água mineral e jogou-se pela janela.
A polícia encontrou seu computador ligado e seu apartamento revirado. Na tela, a página do e-mail continha uma mensagem curiosa rodeada por símbolos pouco normais. Quando o inspetor Mcground começou a ler, percebeu de que se tratava de um Spam de um novo filme: http://www.getdigital.de/images/produkte/pi-poster.png

4/28/2009

O Livro da Carne - I


1.Como matar de verdade


Se eu pudesse retornar ao meu passado para passar uma borracha em algumas coisas que fiz, eu com certeza faria isso com pequenos momentos onde eu pequei contra o meu maior mandamento de hoje em dia: não amar.
Sinto-me imensamente culpado por ter dito que amava minha mãe e por tê-la abraçado tantas vezes pra sentir o cheiro reconfortante de sua pele. E minha mulher, sinto muito por tê-la amado demais, por ter
dado a ela dois filhos lindos que eu olhava todos as madrugadas enquanto dormiam. Sinto muito por ter pena de todos os que eu vi sofrendo e, por uma espécie esquisita de amor, ter tentado amenizar seus sofrimentos.
O amor enfraquece a alma e como era de se esperar, me deixou tão fraco quanto um graveto seco no chão que se parte e se esfarela quando uma criança pisa em cima dele.
Já fazem dois anos que eu me tornei uma espécie de nômade da cidade. Eu nunca paro por muito tempo em um lugar. O pouco dinheiro que consigo é realizando serviços na maioria das vezes desagradáveis demais para que alguém possa querer fazer. Eles me pagam e eu simplesmente transformo toda aquela nojeira em comida no final do dia.
Assim que eu resolvi recortar o amor fora da minha vida eu tive que tomar a decisão de nunca mais parar de andar. Nunca mais me sentar num ponto de ônibus e puxar conversa com uma garota bonita que poderia se tornar uma nova namorada, um novo caso, uma nova mulher ou uma nova mãe dos meus novos filhos. Não queria ouvir velhos contando suas histórias de vida no metrô enquanto eu voltava pra meu apartamento barato alugado em qualquer lugar sujo o bastante para ninguém querer saber onde eu estava.
E quando um novo laço de amizade se formava sem minha intenção, num momento em que eu abaixava a guarda, eu mudava de novo de cidade. Ia pra longe.
Mudei meu nome e minha forma de viver. Eu tenho meus propósitos, vou contar tudo aqui.
Eu cresci numa família áspera e tentava suavizar essa aspereza no passar da minha vida. Vi meus familiares tentando se matar várias vezes, gritando e se unhando até que ficavam semanas sem se falar sob o mesmo teto, desejando a morte uns dos outros. Só a minha mãe era doce o bastante para não ficar amarga como todos os outros. Durante 25 anos eu vivi sob ameaças de morte e todo o tipo de maldade que poderia ser feita entre seres humanos, e o mais absurdo, éramos todos primos,
avós e tios...
Eu tentava sem parar fazer com que o ódio fosse extinto daquele âmbito, mas o que eu conseguia era algo efêmero e raso que não durava sequer algumas horas. Então eu me cansei e resolvi ir morar em outra casa, com a minha futura esposa. Sim, eu senti um imenso amor crescendo dentro de mim e eu não o mantive entre paredes, eu o deixei crescer e florear. Foi quando ela engravidou dos gêmeos. Nosso dinheiro não crescia em árvores, mas cortando muitos luxos nós conseguíamos providenciar o básico da alimentação, vestimenta e educação. O resto, todas as lacunas matérias eram docemente preenchidas com amor incondicional e com dedicação familiar.
Mas é muito complicado, eu, uma ser altamente enfraquecido pelo amor, deixar de sentir um remorso que crescia e me corroia feito um câncer maligno quando eu pensava nos meus parentes que se odiavam (meus irmãos e pais) e principalmente na minha mãe, que querendo formar uma nova família, se associou ao inferno.
Fiquei sabendo que uma guerra havia realmente sido declarada entre eles. Meus tios querendo arrancar os olhos dos meus irmãos, meu pai querendo esquartejar meus avós paternos (sim, era apenas o sangue paterno o contaminado pela raiva e pelo ódio). Na semana seguinte, tomei conhecimento que um dos meus primos havia sido esfaqueado pela minha avó e isso fez com que ela perdesse muito sangue pois ninguém permitiu que a ambulância o levasse para o hospital. Quando lá chegou, em estado de choque, ele passou pelo infernal tratamento público que nosso país oferece, mas morreu antes de conseguir repor seu sangue.
Diante disso, eu, temendo pelos meus familiares mais próximos, tentei apaziguar todos. Conversei com cada um deles, mas encontrei apenas armas apontadas em minha direção e ameaças a mim e a todos da minha família.
Eu me lembro como se fosse hoje quando eu cheguei à casa dos meus pais e lá estava uma guerra sendo travada. Meus irmãos choravam com seus olhos esbugalhados de ódio enquanto lutavam contra uma reunião de primos e tios que se organizaram pra acabar com a gente. Ninguém deveria sair vivo. Entrei correndo. Meu pai sangrava pela boca e tinha uma das pernas esfoladas, mas ele não parava de golpear com o facão. E quando eu cheguei à cozinha, próximo ao fogão eu encontrei o que eu mais temia: minha mãe, ou o que restava dela, caída ao chão, sem braços ou pernas e ainda agonizando. O chão branco da cozinha se tornara vermelho, uma poça caudalosa de sangue. Joguei-me ao chão e olhei em seus olhos. Eu vi quando suas pupilas dilataram.
Eles haviam encontrado minha mãe sozinha em casa. Resolveram tortura-la antes de dilacerarem seus membros.
Eu senti algo escorrendo de mim, como uma artéria aberta, jorrando e jorrando, enquanto outra substância me preenchia. Esta agora, era negra e quase sólida.
Levantei-me devagar como se fosse uma criatura feita de sangue, pois estava coberto com o liquido que coloria o assoalho da cozinha. E aí eu perguntei silenciosamente pra deus o que ele queria me dizer com essas atitudes. Eu olhei pra cima e só vi o teto de concreto, sem nenhum deus para me responder qualquer pergunta, sem nenhuma palavra aconchegante ou calmante naquele meu momento de necessidade.
O que aconteceu logo em seguida foi que todos os meus músculos se relaxaram e uma incrível paz interior me dominou.
Os barulhos da guerra continuavam lá fora. Gritos, meus irmãos chorando enquanto lutavam, meu pai golpeando em silencio, totalmente fora de si.
Me abaixei na dispensa enquanto o sangue do chão coagulava entre os dedos dos meus pés descalços. Lá dentro encontrei um pequeno estoque de álcool. Seis garrafas fechadas e uma já aberta com um pouco mais da metade do conteúdo. Peguei um balde pequeno e o enchi com todo o álcool que encontrei. Peguei pedaços de jornal e também os fósforos e subi as escadas indo em direção à varanda. Lá de cima, com o coração extremamente confortável eu visualizei toda a guerra. Joguei todo o conteúdo do balde sobre meus tios e primos, como se fosse uma espécie de benção que eu lhes conferia com aquele conteúdo benzido pelo puro ódio.
Alguns não perceberam, mas antes que pudessem fazer alguma coisa, eu já estava com um chumaço de jornal aceso em minha mão. É impressionante como o fogo produzido pelo álcool produz uma chama quase invisível. Era percebido que havia fogo, pois todos gritavam desesperadamente enquanto suas roupas se dissolviam e o cheiro de cabelos chamuscados e pele queimada subia pelo ar... eu me sentia como um artista que dava os últimos retoques na sua melhor tela.
Enquanto ainda queimavam e eram dilacerados pelo meu pai e irmãos, eu saí andando, largando o grande amor que eu sentia pra trás, deitado morto na cozinha.
Passei em casa e ninguém estava lá. Peguei algumas roupas, coloquei na mochila. Não deixei bilhetes nem presentes, simplesmente parti.
Creio que muita gente deve ter achado que eu fui embora para fugir da polícia. Mas eu estava fugindo do amor e do afeto que ainda poderia restar em minha vida. E assim eu continuo pulando de cidade para cidade, trabalhando nos lugares mais fétidos que encontro e que me paguem o mínimo para comprar cigarros e um prato de comida por dia. Não quero amigos, não quero amores, não quero viver muito. Só quero aceitar a herança que corre nas minhas veias, o ódio e a sede pelo sangue.

2/19/2009

A. entra na casa. Olha para o teto que é na verdade um forro de PVC sujo e embolorado. Ele acha que será mais uma noite em sua vida. Olha para os lados e descobre que todos já tem o que fazer. Não há ninguém além dele. Ele se deita no sofá e dorme. Os pés aparecem pra quem olha do lado de fora da porta.

Eles entram, enchugam com balas incandescentes todas as memórias de cada uma das pessoas daquela casa velha.

A. é agora zero.

E nós?

Conseguimos entender de quem é a culpa? Conseguimos entender quem sofre mais?

Precisamos saber que a infância tem fim e que na verdade, os brinquedos podem significar mais do que a diversão.

Meus pêsames a todos.

http://www.cs4fn.org/vlsi/images/sand.jpg

6/08/2008

Rio Lijiang, perto de Yangshuo, China







Percebi que olhando fotos de lugares como esse eu perco a necessidade de tomar anciolíticos. É perfeito o que há ao nosso redor. Espero um dia poder colocar meus pés nesse maravilhoso lugar.

"Existe mais canções de amor do que qualquer outro tipo. Se canções influenciasse as pessoas, amaríamos uns aos outros."

Frank Zappa
Tenho me atrasado para cordar
Demorado para perceber e retornar
A aspereza vigilante do dia
Construída nas pequenas coisas

Tenho me atrasado para a cólera
Demorado a atingir a posição de luta
A sagacidade da guerra diária
Transformando-a em circo

Tenho me observado menos, me descrito menos
Me angustiado menos, me menosprezado menos
E isso me fez perceber melhor as núvens e as estrelas

Há um mundo lá fora mas eu prefiro morar aqui
No colo da minha completa satisfação
Na esperança de viver mais um segundo e cada vez mais feliz!

6/03/2008

A estória de minha própria loucura parte 7 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

- "O cérebro é dividido em dois meu querido amigo e, obviamente, cada um desses hemisférios tem uma função diferente." - disse Lua, em seu tom áspero.
Jano fingia tomar notas enquanto sua cliente exercitava seu ego.
- "O hemisfério esquerdo é cartesiano, duro e quadrado." - continuou Lua - "O direito, sonhador, leve como o ar, incopreende o compriensível mas contempla o todo sem esquartejá-lo. Eu quero atingir os dois, os dois lados do cérebro. Nossa campanha publicitária tem que fazer com que o possível cliente lembre-se sempre daqui."
- "Senhorita Lua" - disse Jano, completamente inseguro - "já que a senhora compreende tão bem o processo, poderia me ajudar a ter uma idéia?"
- "Claro Jano, na verdade, vou te dar a melhor de todas as idéias: trabalhe e pare de tentar extrair seu trabalho dos próprios clientes..."
Jano lembrou-se das pequenas manchas de sangue no lençol. O medo o invadiu. Queria estar sozinho mas não poderia. Lua o observava atentamente como se tentasse compreender os já quase cinco minutos de silêncio. Tentava formular em seu cérebro tudo o que era necessário para que seu mais novo objeto de estudo poderia estar sentindo. Sim, ela havia escolhido Jano como novo campo de trabalho.
Em meio a pressão que Lua exercia, Jano caiu novamente em seu desespero. Ela não consiguia controlar a situação. Entoava o mantra apara si mesmo: "porque o mundo é tão ruim assim?" Não entendia o que tudo aquyilo poderia significar para ele. uma prisão dentro de ,seu próprio corpo, de sua própria alma.
- "JANO!" - gritou Lua, de forma inesperada.
Jano deu um salto. Seu estômago se apertava e doía, suas mãos tremiam freneticamente.
Lua o segurou pela camisa, puxou-o de forma violenta e vociferou:
- "QUAL É A COR DOS MEUS SAPATOS?!"
Ele não entendia, não queria entender. Queria na verdade desmair, dormir, morrer...
Lua gritou novamente e não obteve resposta. Soltou-o e ele caiu sentado no sofá. Rapidamente ela começou a fazer anotações em seu caderno. Havia finalmente encontrado alguém com o perfil que ela queria para poder estudar.

2/18/2008

A estória de minha própria loucura parte 6 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

Havia na memória quase desperta de Jano um sonho breve, algo como um beco sem saída onde tinha entrado mas não conseguia achar mais o caminho da rua. Lentamente abriu os olhos e observou que os lençóis estavam cheios de manchas pequenas de sangue. Achou estranho já que repetia diariamente o ritual de trocar suas roupas de cama. Além disso, seu corpo não mostrava nenhum sinal de ferimento. Sentou-se na cama e passou a mão nos cabelos compridos tentando provocar o alinhamento dos fios da melhor forma possível com os dedos. O quarto da casa da sua mãe era na verdade o maior de seus refúgios. Mesmo agora, nesta fase onde Jano passava a maior parte da vida perto do trabalho pois ficava muitíssimo tempo em torno de suas campanhas de publicidade, o único lugar do mundo que parecia fornecer a ele a sensação de estar seguro era esse quarto.
9:30 da manhã, ele olhou no relógio de pulso que vivia pendurado na guarda de sua cama e se lembrou que havia marcado um encontro com uma estudante de psicologia para poder ajudá-la a criar uma campanha publicitária para a clínica da qual fazia parte. Extranhamente a mulher se chamava Lua e tinha uma voz que sibilava entre o suave e o irritante. Era tudo o que ele conseguia saber pois até o presente momento só tinha conversado com ela por telefone.
Levantou-se, cumpriu rigorosamente seu ritual matinal de tomar o desjejum lentamente lendo algum livro, escovar os dentes, colocar uma música e se trancar no banheiro onde por sua vez ele se concetrava sozinho tentando acumular forças para viver seu agitado dia.
Na verdade Jano estava morrendo de medo. Não sabia o que estaria se passando com sua vida. Sentia-se perdido em meio a um complexo sistema de verticalização do qual ele não queria fazer parte. Sentia medo por estar estagnado profissionalmente e muito em breve, criativamente. Jano sentia pavor de passar mal em um lugar onde ninguém o conhecesse, ser levado para um hospital de carniceiros e pegar alguma infecção ou algo pior. Jano sentia-se doente por causa das inexplicáveis manchas em seu lençol. A única coisa que ele consguia pensar era que as manchas poderia ser resultado de uma tosse noturna. Isso por sua vez indicaria que seus pulmões estivessem com algum problema grave. Sentiu então uma dor, como uma faca sendo cravada em suas costas. O pulmão doía, mas não havia doído até o presente momento quan Jano havia supostamente encontrado a explicação para as manchas.
Saiu do banheiro muito tempo depois e pois-se a ir de encontro a Lua. Levou bastante tempo pegando o metrô e quando lá chegou, Lua já lhe esperava.
- "Olá, meu nome é Jano. Gostaria de falar com a senhorita Lua por favor."
- "Aparentemente rapaz, a sensação de estar vivendo em seu mundo catatônico transforma sua visão em algo borrado e não acessível ao cérebro. Eu sou Lua, e este é meu crachá, como pode notar, meu nome está nele."
Jano preferiu não debater tal grosseria. Lua por sua vez pareceu guardar rancor por um fato tão insignificante. Ela fez com que Jano entrasse em seu escritório para que pudessem conversar sobre as propagandas e foi lá que Jano começou a ver que tudo no universo apresenta alglum tipo de sentido.

2/17/2008

A estória de minha própria loucura parte 5 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

- "Tem gente que diz que nós viemos parar nessa terra pra poder entender melhos o que há acima das estrelas menino. Você sente isso?"
Jano esboçou um sinal positivo enquanto ainda tentava contemplar a sua impossibilidade de retornar à sua casa.
- "Ele fez isso com você, levou seu sino. Ele parecia querer te ajudar, mas apenas roubou você. O que será que despertou o interesse dele pra lhe cometer esse mal?"
Jano não mais ouvia o segundo agricultor que continuava de pé atrás dele. Quando Jno se virou, notou a grande árvore carregada de frutos e decidiu rapidamente comer seu remédio. Não sabia ao certo se era veneno ou a cura pros seus males, porém, ele não se importava agora, qualquer uma das duas alternativas funcionaria. Ele só queria não ter que estar sentindo tanta aflição.
Andou até a árvore mas se sentiu enfraquecido a cada passo até chegar a cair de joelhos e não conseguir levantar os olhos.
- "Você não conhece o significado do poema dessa árvore. Ela está aí plantada há muito tempo e ninguém vivo conseguiu ter a energia vital que ela acumulou durante todos esses anos."
Jano olhou para o homem com aparência de agricultor e esse lhe estendia a mão. Ao se levantar ele notou que estava um pouco mais aliviado, mas que ainda sentia o pânico causado pela incapacidade que a falta do seu sino lhe proporcionava.
- "Meu nome é Havir. Eu vim até aqui para aprender, assim com você. Estou aqui para levar você pelo caminho mais curto até a sua casa."
Jano não entendia, mas não havia mais o que fazer. Seus olhos desesperados se movimentavam sem parar em suas órbitas esqueléticas. Mãos frias, estômago horrível.
- "Me ajude por favor" - Suplicou Jano.
- "Sim, farei o que puder. Mas saiba que no final, você terá que pagar isso com a mesma moeda."
Jano fez que sim com a cabeça sem ao menos pensar no que significava "pagar com a mesma moeda". O desespero lhe obrigava a depender inteiramente da ajuda de qualquer pessoa. A vontade de se suicidar nesse momento era gigantesca. Sua mente não parava de pensar na estória que lera onde um dos personagens se deitava no chão do aeroporto e dizia que ali era muito confortável e que era um absurdo as pessoas não saberem disso. Esse personagem com a demonstração apetitosa de conforto acabara de ser levado pela morte. Seria a morte um conforto além do normal? Essa era a idéia que o fazia querer encontrar-se com essa pálida menina de preto.
E Havir, olhando nos olhos de Jano disse:
- "Precisamos nos apressar. Mesmo o caminho mais curto é ainda muito longo."
Virou-se e começou a caminhar para dentro da floresta.

1/06/2008

A estória de minha própria loucura parte 4 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Os olhos de Jano se abriram instantâneamente. Seu coração pulou e um frio em seu estômago foram sentidos simultaneamente quando ele ouviu a voz. Mas, de onde vinha essa voz se ele estava sozinho naquele lugar a uma distância considerável de qualquer civilização? Jano pensou em não ter ouvido e sim sentido aquela voz. De olhos abertos ele enchergava as árvores a sua frente e de uma forma muito estranha, parecia muito mais fácil conseguir chegar até elas.
Os passos se encurtaram e ele chegava mais perto da floresta e mais longe da casa. Sua mão apertava forte o sino para que de maneira nenhuma ele escorregasse de seus dedos. Quando não mais podia andar Jano se jgou ao chão exausto por causa de sua luta contra suas próprias limitações. Chorava, um choro que poderia encher de pena qualquer um que passasse e o visse ali no chão com suas roupas claras e largas, sua barba por fazer e seu cabelo curto. Os olhos cheios de lágrimas distorciam a visão do mundo que o cercava, desfocavam a visão do único objeto que lhe trazia segurança, o sino em sua mão. Jano chorava porque se sentia naquele momento um perdedor, um fraco que não conseguia nem lidar com seus próprios problemas.
Ele pensava que em países pobres pessoas morriam e fome e viam seus filhos definharem pedindo comida sem nada a fazer e mesmo assim essas pessoas encaravam seu destino de frente, duras, mesmo que fracas e exaustas ao chão. E ele, um homem sadio que se recolheu a sua fraqueza, se isolando de todos por não consmeguir lidar com outras pessoas, por não conseguir lidar nem mesmo com ele. Um fraco que não deveria ter nascido pois não conseguia nem mesmo carregar a cruz que lhe fora destinada.
O choro compulsivo foi passando e já eram 3 horas da tarde quando ele acordou de um leve cochilo na mesma posição em que estava quando caiu. Ele se lembrou de ter sentido a voz lhe mandar abrir os olhos e lentamente foi erguendo suas pálpebras e contemplou a visão ao seu redor. Jano estava já dentro da floresta, a cerca de 10 metros de distância da entrada. Ele havia conseguido ir muito mais longe do que pensara. A sensação de ser um fraco passou e ele se sentiu a pessoa mais forte do mundo. Se levantou. Um riso de pura alegria adornava seu rosto enquanto olhava para as árvores ao seu redor. Olhou para suas mãos sujas de terra e sentiu algo estranho. Não a costumeira vontade de lavar as mãos que sentiria. O sino estava jogado ao chão e quando ele resolveu abaixar para pega-lo algo inesperado aconteceu:
- "Olá Jano."
Uma voz, ele havia sentido novamente. Olhou rapidamente pra trás e enchergou um homem trajando uma roupa esfarrapada de agricultor. Pele queimada de sol e mãos grossas. Mas como ele saberia seu nome? Talvez pudesse ter conhecido seu Tio.
- "Eu tenho o remédio que você tá querendo." - Falou o agricultor em um linguajar carregado.
- "Como sabe que busco um remédio?"
Jano estava absorto, mas queria entender quem era aquele e como ele poderia saber coisas sobre sua vida. Precisava saber se ele conhecia seu Tio, irmão de sua mãe.
- "É que todo mundo quer um remédio pra alguma coisa, num é mesmo?"
- "E como você pode ter algo assim?"
O agricultor riu baixando a fronte para esconder o riso.
- "Tem muito mais coisa nesse mundo do que o que você acha que sabe garoto, eu sei de todas elas e quero te dar o que você precisa."
Dizendo isso, o agrucultor apontou para uma árvore e nela haviam frutos maduros. Jano não se lembrava dessa árvore, nem de ter algum dia comido frutos assim. Caminhou lentamente em direção a árvore e, nesse instante, um homem com aparência similar a do agricultor apareceu e se colocou entre a árvore e ele.
- "Toda árvore tem uma poesia, você já leu a poesia dessa?" - disse o segundo agricultor.
Jano não entendeu nada, nunca havia ouvido falar que as árvores tinham poesias. Não fazia sentido. Olhou pra trás e começou a voltar para pegar seu sino. Voltaria pra casa imediatamente. Mas o primeiro agricultor correu até o objeto jogado ao chão e o apanhou. Jano começou a sentir a mesma sensação de pânico que conhecera antes. Sua passagem de volta não estava mais a sua disposição, precisaria depender da vontade do homem que agora o segurava.
Ele olhou para o segundo homem com aspecto de agricultor e quando voltou o olhar para o primeiro, este já corria longe pra dentro da floresta, carregando o sino.

1/05/2008

"Jano, abra os olhos..."



A estória de minha própria loucura parte 3 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Dizem que todos tem pelomenos um inimigo no mundo. Até o próprio deus tem o seu. Não seria Jano uma exceção a essa regra tão abrangente.
- "Imagino que sua mente funcione como uma grande orgia de pensamentos desconexos." - disse Lua, a mulher que esperava Jano no estacionomento - "Uma inundação de vontades e desejos que se somam as suas impossibilidades... você é um complexo ser derivado da antítese..."
Lua era uma antiga conhecida de Jano e, embora ela não o considerasse assim, ele a colocava no patamar de pior inimiga. Não porque houvesse ódio ou algum sentimento de vingança por parte dos dois, mas porque Lua era uma estudante de psicologia afoita que teimava em tentar diagnosticar Jano. Esse era o pior motivo de todos, embora a história dos dois não se resumisse somente a isso.
Jano encolheu os ombros e olhou para os pés de Lua. Tentou caminhar em direção a porta de s,eu carro mas já era tarde demais, Lua já havia se colocado no caminho e Jano agora se sentia cada vez mais desesperado para encontrar seu abrigo.
- "Saia já da minha frente garota!" - gritou Jano, um grito que não continha raiva e sim desespero.
Lua sorriu, quais seriam os motivos reais dela o estar tornturando?
- "Sua somatização está cada vez pior. O que será que deve ter acontecido hoke no escritório? Alguém provavelmente o criticou duramente, motivo pelo qual você quer se ver livre do universo por alguns instantes, dentro do seu carro, com música alta para que ninguém tenha que ouvir seus gemidos de agonia desnecessária." - argumentou Lua enquanto retirava de seus bolsos um pequeno bloco de notas e uma caneta.
Jano consumia-se. Sentia fortes dores estomacais e intestinais, seus olhos ardiam, seus ouvidos zumbiam alto e até os seus ossos pareciam querer fazer parte de toda a sinfonia de sintomas. Ele contemplava com olhar de fome a maçaneta da porta de seu carro e em um ato instintivo dirigiu-se para a porta, empurrando lua para o lado.
Lua gritou de susto, olhou-o boquiaberta e disse:
- "O nível de sua instabilidade é tão alto que você recorre a atitudes primárias..."
Mas era tarde, Jano já havia se trancado em seu carro e o "Ok Computer" do Radiohead já estava tocando alto.
Dentro do carro, Jano se contorcia de medo, temia não conseguir sair nunca mais dali. Desejava com todas as forças a morte pois ela significava a fuga, o alívio de toda aquela confusão que ele não conseguia entender.
E sem perceber, quando retornou de seus angustiantes pensamentos, Jano viu que já havia avança,do mais que antes para dentro da floresta. Sentiu uma mistura de medo com orgulho. Ele poderia ser forte sim, poderia ir dentro da floresta, mas na verdade estava ainda a uns 100 metros da real entrada das árvores.
Olhou pra trás, viu sua casa a uma pequena distância. Segurou firme o sino azul em sua mão e sintiu que tudo poderia ser revertido caso ele quisesse. Olhou pra frente e caminhou mais firme. As árvores se aproximavam e Jano sentia uma espécie de angústia. Que mundo poderia existir dentro daquelas árvores que lhe pudesse fazer mal?
E ele parou. Sua respiração estava ofegante, parecendo que ele havia corrido por muitos quilômetros, mas na verdade, havia apenas caminhado. Fechou os olhos, equilibrou sua vida em uma balança imaginária e viu que ela estava tão leve que não fazia diferença, o mundo, no outro prato da balança era infinitamente mais pesado. Imaginou a noite escura e a quantidade de estrelas e planetas do universo e viu seu tamanho e sua insignificância perante ao todo. Pensaou em deus e em tudo o que os homens resolveram criar para não se sentirem sozinhos e percebeu, pela primeira vez que ele estava completamente sozinho no universo, que ele era único e que ele tinha mais força assim do que tendo que pedir ajuda divina.
- "Jano, abra os olhos..."

12/27/2007

Propaganda publicitária feita por Jano...

.........."Há sempre algo a esquecer, Vodka sempre te ajuda com isso"

A casa de Jano, quando ele foi morar na floresta.


Jano veio morar nessa casa quando completou 32 anos. Ela pertencia a um de seus tios, irmão de sua mãe. Como a casa iria ser doada Jano resolveu ir morar nela.

Obs.: Se pretende entender, leia as duas partes da estória que estão logo abaixo.

A estória de minha própria loucura parte 2 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Obs.: Se pretende mesmo ler, procure a primeira parte antes de ler esta.

A chuva porém, não vinha há alguns meses e ele sentia um pouco sua falta. A sua frente, grandes áqvores de longos anos de vida farfalhavam suas folhas ao vento e se fechavam mais e mais até se transformarem um uma cortina verde.
Jano temia mudanças, temia muito não conseguir voltar para a sua casa, mas mesmo assim ele estava para sair e ir um pouco mais além naquela floresta no alto da montanha. Desvendar um pouco mais da história de sua terra e de suas raízes. Desceu o último degrau da escada tocando o solo argiloso com seu par de tênis mais que surrado. Fechou as mãos com força e sentiu o terrível medo em seu estômago. Sim, ele havia concluído que o medo se manifestava nele em seu estômago e por isso tentava combatê-lo por meis esquisitos como beber água gelada ou mesmo mudar sua respiração para uma mais diafragmática, tendo então que inflar a barriga para inspirar, o que massagearia seu estômago fazendo com que ele se sentisse mais confortável.
Começou a andar sem olhar pra frente, olhando apenas o chão como se estivesse envergonhado de estar fazendo aquilo. Seus passos eram inseguros mas mesmo assim ele avançava em direção da floresta. Passou pelas árvores de amoras que estavam carregadas e apenas as acariciou com a mão esquerda, esperando que as árvores pudessem absorver todo o medo e mal estar que ele sentia.
Jano caminhava sem parar, sem contemplar nada ao seu redor, apenas voltado para o interior de suas memórias. Fazia isso naquele momento pois já havia, em tentativas anteriores, conseguido avançar até aquela parte da floresta.
Em sua mente ele se lembrou de sua dedicação por anos para poder lutar contra o seu medo, sua busca pelos conceitos espirituais que poderiam sanar sua alma. Aprendeu que todos nós temos na vida uma carga e que essa nunca é mais pesada do que o que conseguimos carregar. Ele sabia muito bem que o medo era seu aprendizado e deveria conseguir extrair dele a força para encarar os dias de frente. No entanto, Jano sempre tropeçava e caía de onde havia conseguido chegar em profundos possos de desespero sem sentido.
Enquanto caminhava ele se lembrou do dia em que havia acordado no horário de sempre para ir trabalhar e quando lá chegou, fora surpreendido por um dos seus superiores que lhe gritava:
- Jano, não entendo o que está acontecendo com você! Por acaso você é retardado? Como você pôde criar slogans tão idiotas para as campanhas de marketing que temos que entregar até a próxima semana? "Salven-se de vocês mesmos, bebam conhaque." "Há sempre algo a esquecer, Vodka sempre te ajuda com isso". Isso é um absurdo! Você transforma os consumidores em doentes que bebem por motivos que eles não querem admitir, que não precisam pensar.
- Chefe, eu estava apenas querendo dar um certo conforto as pessoas, transformando o produto em um amigo ou uma saída pro mundo em que vivem para um mundo melhor...
- Ninguém espera um mundo melhor no fundo de um copo Jano! Você é um incopetente, um doente! Recrie para hoje toda a campanha desses clientes ou você será colocado no olho da rua!
Jano não respondeu, epenas abaixou sua cabeça e contemplou o chão. O medo gritava forte em seu estômago. Suas mão tremiam. Ele queria estar sozinho, em um lugar longe de todos e principalmente, queria que a Elisa não tivesse presenciado aquela cena.
Elisa era uma mulher de 27 anos de cabelos pretos e pele branca. Naturalmente quieta e amistosa. Não havia muito contato entre ela e Jano, já que sempre trabalhavam em projetos diferentes ou em etapas diferentes de um mesmo projeto. No entanto, Jano a observava e a desejava. Ele gostava de pensar nela como uma espécie de oásis em meio a seu complicado universo. Gostava de imaginar como seria o toque de sua pele e o gosto de sua boca. Mas não havia tido ainda coragem o bastante para apostar em algo mais concreto com ela. Ainda mais agora, depois de sua humilhação em público. Mas não era esse o único motivo de ele não chegar perto dela. Ele constumava, além de seus outros mecanismos de pensamento, imaginar passo a passo o futuro. Imaginou que Elisa e ele seriam infinitamente felizes juntos mas que esse infinitamente iria acabar um dia e tudo se tornaria um compromisso disfarçado de felicidade onde na verdade houvesse apenas o comprometimento com o outro. Ela acabaria procurando amantes para poder sair da atmosfera densa que ele com certeza acabaria criando em torno dos dois e, ao fim de tudo, faria com que ela o odiasse.
Jano preferia não ter nada do que ter o ódio de Elisa por ele. Então ele preferia não mudar o curso de seu destino de permanecer sozinho.
Naquela tarde, quando Jano entregou em um grande envelope os resultados árduos do dia de trabalho, ele se dirigiu ao seu carro no estacionamento. Tudo o que ele almejava naquele momento era a segurança do interior do seu carro com vidros fumê e música alta, que disfarçasse sua alta respiração diafragmática, seus gemidos de dor e seu pânico momentâneo. Caminhava como sempre com os olhos voltados para o chão e não percebeu que alguém lhe esperava no estacionamento.

12/26/2007

A estória de minha própria loucura parte 1 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Havia um mundo a ser conhecido dentro de sua própria mente. Uma realidade completamente livre de algemas impostas por irregularidades mentais, manias e pseudo-esquisofrenias. Levantou-se a caminhou até a porta do seu quarto. Lá estava pendurado o sino azul que usava toda vez que tinha que sair ao campo pra um lugar onde acha que poderia não conseguir encontrar o caminho de volta. Como sua casa era situada em um local completamente distante da cidade, em meio às montanhas, ele temia se ver perdido na floresta próxima de sua casa.
Bem, pelas suas contas, hoje era sábado. Era uma bela manhã e tudo estava perfeito pois ele havia preparado seu pão e seu chá gelado na noite anterior. Com o sino azul na mão esquerda, ele caminhou com suas sandálias baixas para a cozinha de sua modesta casa, seu refúgio de alguns mundos externos com os quais ele não conseguia nunca lidar. Abriu a geladeira velha e de lá retirou seu chá gelado (chá mate com pitadas de limão) e colocou-o em um copo de plástico amarelo que estava em cima da mesa. Abriu o guarda-pão e retitou uma fatia com uma faca de cabo queimado. Hoje era um dia perfeito pra colher as amoras e pra conhecer um pouco mais da floresta que se estendia diante de sua residência. Mastigou o pão devagar e tomava pequenos goles do chá enquanto contemplava meio que absorto a porta aberta que dava para o lado de fora da casa. O sino azul sobre a mesa aguardava seu ritual matinal terminar.
Levantou-se da mesa e escovou os dentes, colocou uma música e fechou-se no banheiro. Ajoelhou-se no chão e olhou pra suas próprias pernas numa tentativa absurda e esquisita de se encontrar. Sentia medo por estar sozinho mas ao mesmo tempo sentia-se aliviado por não ter que lidar mais com as críticas e com o mundo do lado de fora de sua propriedade. Tinha 36 anos, cabelos curtos e um corpo magro e alto. Chamava-se Jano. E não sabia quanto tempo ele ainda teria que conviver com essa dificuldade de conseguir entender, de conseguir sair de casa e ver outras pessoas. O mundo fora cruel com ele, mas numa proporção normal, a mesma aplicada a todas as outras pessoas que nele vivem. Mesmo assim, ele se sentia como se fosse especialmente machucado pelo mundo, testado até não conseguir mais e preso em seu mundo interno.
"O difícil mesmo era ter que explicar - pensava ele - ter fazer com que todos conseguissem entender como funcionava minha mente pra que elas conseguissem me aceitar e não me achar uma pessoa tão nociva."
Mas não adiantava, tudo era doloriado demais. Ele preferiu a solidão.
Saiu do banheiro de roupa trocada, cabelos alinhados e apanhou, na mesa da cosinha, o sino azul. Se encaminou até a porta e saiu por ela. Um vento lhe refrescou a alma e ele se sentiu confortável, sentimento raro pra uma pessoa em sua condição. Pensou naquele momento que todos os seres viventes do mundo poderiam sentir aquilo, e que apesar de tudo, esse era na verdade um dos maiores objetivos da vida de cada ser: o confortável, seguro...

Desceu dois degraus da escada que terminava em chão de terra, um chão com alta concentração de argila que costumava ficar muito escorregadio quando chovia.