4/28/2009

O Livro da Carne - I


1.Como matar de verdade


Se eu pudesse retornar ao meu passado para passar uma borracha em algumas coisas que fiz, eu com certeza faria isso com pequenos momentos onde eu pequei contra o meu maior mandamento de hoje em dia: não amar.
Sinto-me imensamente culpado por ter dito que amava minha mãe e por tê-la abraçado tantas vezes pra sentir o cheiro reconfortante de sua pele. E minha mulher, sinto muito por tê-la amado demais, por ter
dado a ela dois filhos lindos que eu olhava todos as madrugadas enquanto dormiam. Sinto muito por ter pena de todos os que eu vi sofrendo e, por uma espécie esquisita de amor, ter tentado amenizar seus sofrimentos.
O amor enfraquece a alma e como era de se esperar, me deixou tão fraco quanto um graveto seco no chão que se parte e se esfarela quando uma criança pisa em cima dele.
Já fazem dois anos que eu me tornei uma espécie de nômade da cidade. Eu nunca paro por muito tempo em um lugar. O pouco dinheiro que consigo é realizando serviços na maioria das vezes desagradáveis demais para que alguém possa querer fazer. Eles me pagam e eu simplesmente transformo toda aquela nojeira em comida no final do dia.
Assim que eu resolvi recortar o amor fora da minha vida eu tive que tomar a decisão de nunca mais parar de andar. Nunca mais me sentar num ponto de ônibus e puxar conversa com uma garota bonita que poderia se tornar uma nova namorada, um novo caso, uma nova mulher ou uma nova mãe dos meus novos filhos. Não queria ouvir velhos contando suas histórias de vida no metrô enquanto eu voltava pra meu apartamento barato alugado em qualquer lugar sujo o bastante para ninguém querer saber onde eu estava.
E quando um novo laço de amizade se formava sem minha intenção, num momento em que eu abaixava a guarda, eu mudava de novo de cidade. Ia pra longe.
Mudei meu nome e minha forma de viver. Eu tenho meus propósitos, vou contar tudo aqui.
Eu cresci numa família áspera e tentava suavizar essa aspereza no passar da minha vida. Vi meus familiares tentando se matar várias vezes, gritando e se unhando até que ficavam semanas sem se falar sob o mesmo teto, desejando a morte uns dos outros. Só a minha mãe era doce o bastante para não ficar amarga como todos os outros. Durante 25 anos eu vivi sob ameaças de morte e todo o tipo de maldade que poderia ser feita entre seres humanos, e o mais absurdo, éramos todos primos,
avós e tios...
Eu tentava sem parar fazer com que o ódio fosse extinto daquele âmbito, mas o que eu conseguia era algo efêmero e raso que não durava sequer algumas horas. Então eu me cansei e resolvi ir morar em outra casa, com a minha futura esposa. Sim, eu senti um imenso amor crescendo dentro de mim e eu não o mantive entre paredes, eu o deixei crescer e florear. Foi quando ela engravidou dos gêmeos. Nosso dinheiro não crescia em árvores, mas cortando muitos luxos nós conseguíamos providenciar o básico da alimentação, vestimenta e educação. O resto, todas as lacunas matérias eram docemente preenchidas com amor incondicional e com dedicação familiar.
Mas é muito complicado, eu, uma ser altamente enfraquecido pelo amor, deixar de sentir um remorso que crescia e me corroia feito um câncer maligno quando eu pensava nos meus parentes que se odiavam (meus irmãos e pais) e principalmente na minha mãe, que querendo formar uma nova família, se associou ao inferno.
Fiquei sabendo que uma guerra havia realmente sido declarada entre eles. Meus tios querendo arrancar os olhos dos meus irmãos, meu pai querendo esquartejar meus avós paternos (sim, era apenas o sangue paterno o contaminado pela raiva e pelo ódio). Na semana seguinte, tomei conhecimento que um dos meus primos havia sido esfaqueado pela minha avó e isso fez com que ela perdesse muito sangue pois ninguém permitiu que a ambulância o levasse para o hospital. Quando lá chegou, em estado de choque, ele passou pelo infernal tratamento público que nosso país oferece, mas morreu antes de conseguir repor seu sangue.
Diante disso, eu, temendo pelos meus familiares mais próximos, tentei apaziguar todos. Conversei com cada um deles, mas encontrei apenas armas apontadas em minha direção e ameaças a mim e a todos da minha família.
Eu me lembro como se fosse hoje quando eu cheguei à casa dos meus pais e lá estava uma guerra sendo travada. Meus irmãos choravam com seus olhos esbugalhados de ódio enquanto lutavam contra uma reunião de primos e tios que se organizaram pra acabar com a gente. Ninguém deveria sair vivo. Entrei correndo. Meu pai sangrava pela boca e tinha uma das pernas esfoladas, mas ele não parava de golpear com o facão. E quando eu cheguei à cozinha, próximo ao fogão eu encontrei o que eu mais temia: minha mãe, ou o que restava dela, caída ao chão, sem braços ou pernas e ainda agonizando. O chão branco da cozinha se tornara vermelho, uma poça caudalosa de sangue. Joguei-me ao chão e olhei em seus olhos. Eu vi quando suas pupilas dilataram.
Eles haviam encontrado minha mãe sozinha em casa. Resolveram tortura-la antes de dilacerarem seus membros.
Eu senti algo escorrendo de mim, como uma artéria aberta, jorrando e jorrando, enquanto outra substância me preenchia. Esta agora, era negra e quase sólida.
Levantei-me devagar como se fosse uma criatura feita de sangue, pois estava coberto com o liquido que coloria o assoalho da cozinha. E aí eu perguntei silenciosamente pra deus o que ele queria me dizer com essas atitudes. Eu olhei pra cima e só vi o teto de concreto, sem nenhum deus para me responder qualquer pergunta, sem nenhuma palavra aconchegante ou calmante naquele meu momento de necessidade.
O que aconteceu logo em seguida foi que todos os meus músculos se relaxaram e uma incrível paz interior me dominou.
Os barulhos da guerra continuavam lá fora. Gritos, meus irmãos chorando enquanto lutavam, meu pai golpeando em silencio, totalmente fora de si.
Me abaixei na dispensa enquanto o sangue do chão coagulava entre os dedos dos meus pés descalços. Lá dentro encontrei um pequeno estoque de álcool. Seis garrafas fechadas e uma já aberta com um pouco mais da metade do conteúdo. Peguei um balde pequeno e o enchi com todo o álcool que encontrei. Peguei pedaços de jornal e também os fósforos e subi as escadas indo em direção à varanda. Lá de cima, com o coração extremamente confortável eu visualizei toda a guerra. Joguei todo o conteúdo do balde sobre meus tios e primos, como se fosse uma espécie de benção que eu lhes conferia com aquele conteúdo benzido pelo puro ódio.
Alguns não perceberam, mas antes que pudessem fazer alguma coisa, eu já estava com um chumaço de jornal aceso em minha mão. É impressionante como o fogo produzido pelo álcool produz uma chama quase invisível. Era percebido que havia fogo, pois todos gritavam desesperadamente enquanto suas roupas se dissolviam e o cheiro de cabelos chamuscados e pele queimada subia pelo ar... eu me sentia como um artista que dava os últimos retoques na sua melhor tela.
Enquanto ainda queimavam e eram dilacerados pelo meu pai e irmãos, eu saí andando, largando o grande amor que eu sentia pra trás, deitado morto na cozinha.
Passei em casa e ninguém estava lá. Peguei algumas roupas, coloquei na mochila. Não deixei bilhetes nem presentes, simplesmente parti.
Creio que muita gente deve ter achado que eu fui embora para fugir da polícia. Mas eu estava fugindo do amor e do afeto que ainda poderia restar em minha vida. E assim eu continuo pulando de cidade para cidade, trabalhando nos lugares mais fétidos que encontro e que me paguem o mínimo para comprar cigarros e um prato de comida por dia. Não quero amigos, não quero amores, não quero viver muito. Só quero aceitar a herança que corre nas minhas veias, o ódio e a sede pelo sangue.

2/19/2009

A. entra na casa. Olha para o teto que é na verdade um forro de PVC sujo e embolorado. Ele acha que será mais uma noite em sua vida. Olha para os lados e descobre que todos já tem o que fazer. Não há ninguém além dele. Ele se deita no sofá e dorme. Os pés aparecem pra quem olha do lado de fora da porta.

Eles entram, enchugam com balas incandescentes todas as memórias de cada uma das pessoas daquela casa velha.

A. é agora zero.

E nós?

Conseguimos entender de quem é a culpa? Conseguimos entender quem sofre mais?

Precisamos saber que a infância tem fim e que na verdade, os brinquedos podem significar mais do que a diversão.

Meus pêsames a todos.

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6/08/2008

Rio Lijiang, perto de Yangshuo, China







Percebi que olhando fotos de lugares como esse eu perco a necessidade de tomar anciolíticos. É perfeito o que há ao nosso redor. Espero um dia poder colocar meus pés nesse maravilhoso lugar.

"Existe mais canções de amor do que qualquer outro tipo. Se canções influenciasse as pessoas, amaríamos uns aos outros."

Frank Zappa
Tenho me atrasado para cordar
Demorado para perceber e retornar
A aspereza vigilante do dia
Construída nas pequenas coisas

Tenho me atrasado para a cólera
Demorado a atingir a posição de luta
A sagacidade da guerra diária
Transformando-a em circo

Tenho me observado menos, me descrito menos
Me angustiado menos, me menosprezado menos
E isso me fez perceber melhor as núvens e as estrelas

Há um mundo lá fora mas eu prefiro morar aqui
No colo da minha completa satisfação
Na esperança de viver mais um segundo e cada vez mais feliz!

6/03/2008

A estória de minha própria loucura parte 7 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

- "O cérebro é dividido em dois meu querido amigo e, obviamente, cada um desses hemisférios tem uma função diferente." - disse Lua, em seu tom áspero.
Jano fingia tomar notas enquanto sua cliente exercitava seu ego.
- "O hemisfério esquerdo é cartesiano, duro e quadrado." - continuou Lua - "O direito, sonhador, leve como o ar, incopreende o compriensível mas contempla o todo sem esquartejá-lo. Eu quero atingir os dois, os dois lados do cérebro. Nossa campanha publicitária tem que fazer com que o possível cliente lembre-se sempre daqui."
- "Senhorita Lua" - disse Jano, completamente inseguro - "já que a senhora compreende tão bem o processo, poderia me ajudar a ter uma idéia?"
- "Claro Jano, na verdade, vou te dar a melhor de todas as idéias: trabalhe e pare de tentar extrair seu trabalho dos próprios clientes..."
Jano lembrou-se das pequenas manchas de sangue no lençol. O medo o invadiu. Queria estar sozinho mas não poderia. Lua o observava atentamente como se tentasse compreender os já quase cinco minutos de silêncio. Tentava formular em seu cérebro tudo o que era necessário para que seu mais novo objeto de estudo poderia estar sentindo. Sim, ela havia escolhido Jano como novo campo de trabalho.
Em meio a pressão que Lua exercia, Jano caiu novamente em seu desespero. Ela não consiguia controlar a situação. Entoava o mantra apara si mesmo: "porque o mundo é tão ruim assim?" Não entendia o que tudo aquyilo poderia significar para ele. uma prisão dentro de ,seu próprio corpo, de sua própria alma.
- "JANO!" - gritou Lua, de forma inesperada.
Jano deu um salto. Seu estômago se apertava e doía, suas mãos tremiam freneticamente.
Lua o segurou pela camisa, puxou-o de forma violenta e vociferou:
- "QUAL É A COR DOS MEUS SAPATOS?!"
Ele não entendia, não queria entender. Queria na verdade desmair, dormir, morrer...
Lua gritou novamente e não obteve resposta. Soltou-o e ele caiu sentado no sofá. Rapidamente ela começou a fazer anotações em seu caderno. Havia finalmente encontrado alguém com o perfil que ela queria para poder estudar.

2/18/2008

A estória de minha própria loucura parte 6 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

Havia na memória quase desperta de Jano um sonho breve, algo como um beco sem saída onde tinha entrado mas não conseguia achar mais o caminho da rua. Lentamente abriu os olhos e observou que os lençóis estavam cheios de manchas pequenas de sangue. Achou estranho já que repetia diariamente o ritual de trocar suas roupas de cama. Além disso, seu corpo não mostrava nenhum sinal de ferimento. Sentou-se na cama e passou a mão nos cabelos compridos tentando provocar o alinhamento dos fios da melhor forma possível com os dedos. O quarto da casa da sua mãe era na verdade o maior de seus refúgios. Mesmo agora, nesta fase onde Jano passava a maior parte da vida perto do trabalho pois ficava muitíssimo tempo em torno de suas campanhas de publicidade, o único lugar do mundo que parecia fornecer a ele a sensação de estar seguro era esse quarto.
9:30 da manhã, ele olhou no relógio de pulso que vivia pendurado na guarda de sua cama e se lembrou que havia marcado um encontro com uma estudante de psicologia para poder ajudá-la a criar uma campanha publicitária para a clínica da qual fazia parte. Extranhamente a mulher se chamava Lua e tinha uma voz que sibilava entre o suave e o irritante. Era tudo o que ele conseguia saber pois até o presente momento só tinha conversado com ela por telefone.
Levantou-se, cumpriu rigorosamente seu ritual matinal de tomar o desjejum lentamente lendo algum livro, escovar os dentes, colocar uma música e se trancar no banheiro onde por sua vez ele se concetrava sozinho tentando acumular forças para viver seu agitado dia.
Na verdade Jano estava morrendo de medo. Não sabia o que estaria se passando com sua vida. Sentia-se perdido em meio a um complexo sistema de verticalização do qual ele não queria fazer parte. Sentia medo por estar estagnado profissionalmente e muito em breve, criativamente. Jano sentia pavor de passar mal em um lugar onde ninguém o conhecesse, ser levado para um hospital de carniceiros e pegar alguma infecção ou algo pior. Jano sentia-se doente por causa das inexplicáveis manchas em seu lençol. A única coisa que ele consguia pensar era que as manchas poderia ser resultado de uma tosse noturna. Isso por sua vez indicaria que seus pulmões estivessem com algum problema grave. Sentiu então uma dor, como uma faca sendo cravada em suas costas. O pulmão doía, mas não havia doído até o presente momento quan Jano havia supostamente encontrado a explicação para as manchas.
Saiu do banheiro muito tempo depois e pois-se a ir de encontro a Lua. Levou bastante tempo pegando o metrô e quando lá chegou, Lua já lhe esperava.
- "Olá, meu nome é Jano. Gostaria de falar com a senhorita Lua por favor."
- "Aparentemente rapaz, a sensação de estar vivendo em seu mundo catatônico transforma sua visão em algo borrado e não acessível ao cérebro. Eu sou Lua, e este é meu crachá, como pode notar, meu nome está nele."
Jano preferiu não debater tal grosseria. Lua por sua vez pareceu guardar rancor por um fato tão insignificante. Ela fez com que Jano entrasse em seu escritório para que pudessem conversar sobre as propagandas e foi lá que Jano começou a ver que tudo no universo apresenta alglum tipo de sentido.

2/17/2008

A estória de minha própria loucura parte 5 - escreverei pra sempre, enquanto o sempre não tiver seu fim.

- "Tem gente que diz que nós viemos parar nessa terra pra poder entender melhos o que há acima das estrelas menino. Você sente isso?"
Jano esboçou um sinal positivo enquanto ainda tentava contemplar a sua impossibilidade de retornar à sua casa.
- "Ele fez isso com você, levou seu sino. Ele parecia querer te ajudar, mas apenas roubou você. O que será que despertou o interesse dele pra lhe cometer esse mal?"
Jano não mais ouvia o segundo agricultor que continuava de pé atrás dele. Quando Jno se virou, notou a grande árvore carregada de frutos e decidiu rapidamente comer seu remédio. Não sabia ao certo se era veneno ou a cura pros seus males, porém, ele não se importava agora, qualquer uma das duas alternativas funcionaria. Ele só queria não ter que estar sentindo tanta aflição.
Andou até a árvore mas se sentiu enfraquecido a cada passo até chegar a cair de joelhos e não conseguir levantar os olhos.
- "Você não conhece o significado do poema dessa árvore. Ela está aí plantada há muito tempo e ninguém vivo conseguiu ter a energia vital que ela acumulou durante todos esses anos."
Jano olhou para o homem com aparência de agricultor e esse lhe estendia a mão. Ao se levantar ele notou que estava um pouco mais aliviado, mas que ainda sentia o pânico causado pela incapacidade que a falta do seu sino lhe proporcionava.
- "Meu nome é Havir. Eu vim até aqui para aprender, assim com você. Estou aqui para levar você pelo caminho mais curto até a sua casa."
Jano não entendia, mas não havia mais o que fazer. Seus olhos desesperados se movimentavam sem parar em suas órbitas esqueléticas. Mãos frias, estômago horrível.
- "Me ajude por favor" - Suplicou Jano.
- "Sim, farei o que puder. Mas saiba que no final, você terá que pagar isso com a mesma moeda."
Jano fez que sim com a cabeça sem ao menos pensar no que significava "pagar com a mesma moeda". O desespero lhe obrigava a depender inteiramente da ajuda de qualquer pessoa. A vontade de se suicidar nesse momento era gigantesca. Sua mente não parava de pensar na estória que lera onde um dos personagens se deitava no chão do aeroporto e dizia que ali era muito confortável e que era um absurdo as pessoas não saberem disso. Esse personagem com a demonstração apetitosa de conforto acabara de ser levado pela morte. Seria a morte um conforto além do normal? Essa era a idéia que o fazia querer encontrar-se com essa pálida menina de preto.
E Havir, olhando nos olhos de Jano disse:
- "Precisamos nos apressar. Mesmo o caminho mais curto é ainda muito longo."
Virou-se e começou a caminhar para dentro da floresta.

1/06/2008

A estória de minha própria loucura parte 4 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Os olhos de Jano se abriram instantâneamente. Seu coração pulou e um frio em seu estômago foram sentidos simultaneamente quando ele ouviu a voz. Mas, de onde vinha essa voz se ele estava sozinho naquele lugar a uma distância considerável de qualquer civilização? Jano pensou em não ter ouvido e sim sentido aquela voz. De olhos abertos ele enchergava as árvores a sua frente e de uma forma muito estranha, parecia muito mais fácil conseguir chegar até elas.
Os passos se encurtaram e ele chegava mais perto da floresta e mais longe da casa. Sua mão apertava forte o sino para que de maneira nenhuma ele escorregasse de seus dedos. Quando não mais podia andar Jano se jgou ao chão exausto por causa de sua luta contra suas próprias limitações. Chorava, um choro que poderia encher de pena qualquer um que passasse e o visse ali no chão com suas roupas claras e largas, sua barba por fazer e seu cabelo curto. Os olhos cheios de lágrimas distorciam a visão do mundo que o cercava, desfocavam a visão do único objeto que lhe trazia segurança, o sino em sua mão. Jano chorava porque se sentia naquele momento um perdedor, um fraco que não conseguia nem lidar com seus próprios problemas.
Ele pensava que em países pobres pessoas morriam e fome e viam seus filhos definharem pedindo comida sem nada a fazer e mesmo assim essas pessoas encaravam seu destino de frente, duras, mesmo que fracas e exaustas ao chão. E ele, um homem sadio que se recolheu a sua fraqueza, se isolando de todos por não consmeguir lidar com outras pessoas, por não conseguir lidar nem mesmo com ele. Um fraco que não deveria ter nascido pois não conseguia nem mesmo carregar a cruz que lhe fora destinada.
O choro compulsivo foi passando e já eram 3 horas da tarde quando ele acordou de um leve cochilo na mesma posição em que estava quando caiu. Ele se lembrou de ter sentido a voz lhe mandar abrir os olhos e lentamente foi erguendo suas pálpebras e contemplou a visão ao seu redor. Jano estava já dentro da floresta, a cerca de 10 metros de distância da entrada. Ele havia conseguido ir muito mais longe do que pensara. A sensação de ser um fraco passou e ele se sentiu a pessoa mais forte do mundo. Se levantou. Um riso de pura alegria adornava seu rosto enquanto olhava para as árvores ao seu redor. Olhou para suas mãos sujas de terra e sentiu algo estranho. Não a costumeira vontade de lavar as mãos que sentiria. O sino estava jogado ao chão e quando ele resolveu abaixar para pega-lo algo inesperado aconteceu:
- "Olá Jano."
Uma voz, ele havia sentido novamente. Olhou rapidamente pra trás e enchergou um homem trajando uma roupa esfarrapada de agricultor. Pele queimada de sol e mãos grossas. Mas como ele saberia seu nome? Talvez pudesse ter conhecido seu Tio.
- "Eu tenho o remédio que você tá querendo." - Falou o agricultor em um linguajar carregado.
- "Como sabe que busco um remédio?"
Jano estava absorto, mas queria entender quem era aquele e como ele poderia saber coisas sobre sua vida. Precisava saber se ele conhecia seu Tio, irmão de sua mãe.
- "É que todo mundo quer um remédio pra alguma coisa, num é mesmo?"
- "E como você pode ter algo assim?"
O agricultor riu baixando a fronte para esconder o riso.
- "Tem muito mais coisa nesse mundo do que o que você acha que sabe garoto, eu sei de todas elas e quero te dar o que você precisa."
Dizendo isso, o agrucultor apontou para uma árvore e nela haviam frutos maduros. Jano não se lembrava dessa árvore, nem de ter algum dia comido frutos assim. Caminhou lentamente em direção a árvore e, nesse instante, um homem com aparência similar a do agricultor apareceu e se colocou entre a árvore e ele.
- "Toda árvore tem uma poesia, você já leu a poesia dessa?" - disse o segundo agricultor.
Jano não entendeu nada, nunca havia ouvido falar que as árvores tinham poesias. Não fazia sentido. Olhou pra trás e começou a voltar para pegar seu sino. Voltaria pra casa imediatamente. Mas o primeiro agricultor correu até o objeto jogado ao chão e o apanhou. Jano começou a sentir a mesma sensação de pânico que conhecera antes. Sua passagem de volta não estava mais a sua disposição, precisaria depender da vontade do homem que agora o segurava.
Ele olhou para o segundo homem com aspecto de agricultor e quando voltou o olhar para o primeiro, este já corria longe pra dentro da floresta, carregando o sino.

1/05/2008

"Jano, abra os olhos..."



A estória de minha própria loucura parte 3 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Dizem que todos tem pelomenos um inimigo no mundo. Até o próprio deus tem o seu. Não seria Jano uma exceção a essa regra tão abrangente.
- "Imagino que sua mente funcione como uma grande orgia de pensamentos desconexos." - disse Lua, a mulher que esperava Jano no estacionomento - "Uma inundação de vontades e desejos que se somam as suas impossibilidades... você é um complexo ser derivado da antítese..."
Lua era uma antiga conhecida de Jano e, embora ela não o considerasse assim, ele a colocava no patamar de pior inimiga. Não porque houvesse ódio ou algum sentimento de vingança por parte dos dois, mas porque Lua era uma estudante de psicologia afoita que teimava em tentar diagnosticar Jano. Esse era o pior motivo de todos, embora a história dos dois não se resumisse somente a isso.
Jano encolheu os ombros e olhou para os pés de Lua. Tentou caminhar em direção a porta de s,eu carro mas já era tarde demais, Lua já havia se colocado no caminho e Jano agora se sentia cada vez mais desesperado para encontrar seu abrigo.
- "Saia já da minha frente garota!" - gritou Jano, um grito que não continha raiva e sim desespero.
Lua sorriu, quais seriam os motivos reais dela o estar tornturando?
- "Sua somatização está cada vez pior. O que será que deve ter acontecido hoke no escritório? Alguém provavelmente o criticou duramente, motivo pelo qual você quer se ver livre do universo por alguns instantes, dentro do seu carro, com música alta para que ninguém tenha que ouvir seus gemidos de agonia desnecessária." - argumentou Lua enquanto retirava de seus bolsos um pequeno bloco de notas e uma caneta.
Jano consumia-se. Sentia fortes dores estomacais e intestinais, seus olhos ardiam, seus ouvidos zumbiam alto e até os seus ossos pareciam querer fazer parte de toda a sinfonia de sintomas. Ele contemplava com olhar de fome a maçaneta da porta de seu carro e em um ato instintivo dirigiu-se para a porta, empurrando lua para o lado.
Lua gritou de susto, olhou-o boquiaberta e disse:
- "O nível de sua instabilidade é tão alto que você recorre a atitudes primárias..."
Mas era tarde, Jano já havia se trancado em seu carro e o "Ok Computer" do Radiohead já estava tocando alto.
Dentro do carro, Jano se contorcia de medo, temia não conseguir sair nunca mais dali. Desejava com todas as forças a morte pois ela significava a fuga, o alívio de toda aquela confusão que ele não conseguia entender.
E sem perceber, quando retornou de seus angustiantes pensamentos, Jano viu que já havia avança,do mais que antes para dentro da floresta. Sentiu uma mistura de medo com orgulho. Ele poderia ser forte sim, poderia ir dentro da floresta, mas na verdade estava ainda a uns 100 metros da real entrada das árvores.
Olhou pra trás, viu sua casa a uma pequena distância. Segurou firme o sino azul em sua mão e sintiu que tudo poderia ser revertido caso ele quisesse. Olhou pra frente e caminhou mais firme. As árvores se aproximavam e Jano sentia uma espécie de angústia. Que mundo poderia existir dentro daquelas árvores que lhe pudesse fazer mal?
E ele parou. Sua respiração estava ofegante, parecendo que ele havia corrido por muitos quilômetros, mas na verdade, havia apenas caminhado. Fechou os olhos, equilibrou sua vida em uma balança imaginária e viu que ela estava tão leve que não fazia diferença, o mundo, no outro prato da balança era infinitamente mais pesado. Imaginou a noite escura e a quantidade de estrelas e planetas do universo e viu seu tamanho e sua insignificância perante ao todo. Pensaou em deus e em tudo o que os homens resolveram criar para não se sentirem sozinhos e percebeu, pela primeira vez que ele estava completamente sozinho no universo, que ele era único e que ele tinha mais força assim do que tendo que pedir ajuda divina.
- "Jano, abra os olhos..."

12/27/2007

Propaganda publicitária feita por Jano...

.........."Há sempre algo a esquecer, Vodka sempre te ajuda com isso"

A casa de Jano, quando ele foi morar na floresta.


Jano veio morar nessa casa quando completou 32 anos. Ela pertencia a um de seus tios, irmão de sua mãe. Como a casa iria ser doada Jano resolveu ir morar nela.

Obs.: Se pretende entender, leia as duas partes da estória que estão logo abaixo.

A estória de minha própria loucura parte 2 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Obs.: Se pretende mesmo ler, procure a primeira parte antes de ler esta.

A chuva porém, não vinha há alguns meses e ele sentia um pouco sua falta. A sua frente, grandes áqvores de longos anos de vida farfalhavam suas folhas ao vento e se fechavam mais e mais até se transformarem um uma cortina verde.
Jano temia mudanças, temia muito não conseguir voltar para a sua casa, mas mesmo assim ele estava para sair e ir um pouco mais além naquela floresta no alto da montanha. Desvendar um pouco mais da história de sua terra e de suas raízes. Desceu o último degrau da escada tocando o solo argiloso com seu par de tênis mais que surrado. Fechou as mãos com força e sentiu o terrível medo em seu estômago. Sim, ele havia concluído que o medo se manifestava nele em seu estômago e por isso tentava combatê-lo por meis esquisitos como beber água gelada ou mesmo mudar sua respiração para uma mais diafragmática, tendo então que inflar a barriga para inspirar, o que massagearia seu estômago fazendo com que ele se sentisse mais confortável.
Começou a andar sem olhar pra frente, olhando apenas o chão como se estivesse envergonhado de estar fazendo aquilo. Seus passos eram inseguros mas mesmo assim ele avançava em direção da floresta. Passou pelas árvores de amoras que estavam carregadas e apenas as acariciou com a mão esquerda, esperando que as árvores pudessem absorver todo o medo e mal estar que ele sentia.
Jano caminhava sem parar, sem contemplar nada ao seu redor, apenas voltado para o interior de suas memórias. Fazia isso naquele momento pois já havia, em tentativas anteriores, conseguido avançar até aquela parte da floresta.
Em sua mente ele se lembrou de sua dedicação por anos para poder lutar contra o seu medo, sua busca pelos conceitos espirituais que poderiam sanar sua alma. Aprendeu que todos nós temos na vida uma carga e que essa nunca é mais pesada do que o que conseguimos carregar. Ele sabia muito bem que o medo era seu aprendizado e deveria conseguir extrair dele a força para encarar os dias de frente. No entanto, Jano sempre tropeçava e caía de onde havia conseguido chegar em profundos possos de desespero sem sentido.
Enquanto caminhava ele se lembrou do dia em que havia acordado no horário de sempre para ir trabalhar e quando lá chegou, fora surpreendido por um dos seus superiores que lhe gritava:
- Jano, não entendo o que está acontecendo com você! Por acaso você é retardado? Como você pôde criar slogans tão idiotas para as campanhas de marketing que temos que entregar até a próxima semana? "Salven-se de vocês mesmos, bebam conhaque." "Há sempre algo a esquecer, Vodka sempre te ajuda com isso". Isso é um absurdo! Você transforma os consumidores em doentes que bebem por motivos que eles não querem admitir, que não precisam pensar.
- Chefe, eu estava apenas querendo dar um certo conforto as pessoas, transformando o produto em um amigo ou uma saída pro mundo em que vivem para um mundo melhor...
- Ninguém espera um mundo melhor no fundo de um copo Jano! Você é um incopetente, um doente! Recrie para hoje toda a campanha desses clientes ou você será colocado no olho da rua!
Jano não respondeu, epenas abaixou sua cabeça e contemplou o chão. O medo gritava forte em seu estômago. Suas mão tremiam. Ele queria estar sozinho, em um lugar longe de todos e principalmente, queria que a Elisa não tivesse presenciado aquela cena.
Elisa era uma mulher de 27 anos de cabelos pretos e pele branca. Naturalmente quieta e amistosa. Não havia muito contato entre ela e Jano, já que sempre trabalhavam em projetos diferentes ou em etapas diferentes de um mesmo projeto. No entanto, Jano a observava e a desejava. Ele gostava de pensar nela como uma espécie de oásis em meio a seu complicado universo. Gostava de imaginar como seria o toque de sua pele e o gosto de sua boca. Mas não havia tido ainda coragem o bastante para apostar em algo mais concreto com ela. Ainda mais agora, depois de sua humilhação em público. Mas não era esse o único motivo de ele não chegar perto dela. Ele constumava, além de seus outros mecanismos de pensamento, imaginar passo a passo o futuro. Imaginou que Elisa e ele seriam infinitamente felizes juntos mas que esse infinitamente iria acabar um dia e tudo se tornaria um compromisso disfarçado de felicidade onde na verdade houvesse apenas o comprometimento com o outro. Ela acabaria procurando amantes para poder sair da atmosfera densa que ele com certeza acabaria criando em torno dos dois e, ao fim de tudo, faria com que ela o odiasse.
Jano preferia não ter nada do que ter o ódio de Elisa por ele. Então ele preferia não mudar o curso de seu destino de permanecer sozinho.
Naquela tarde, quando Jano entregou em um grande envelope os resultados árduos do dia de trabalho, ele se dirigiu ao seu carro no estacionamento. Tudo o que ele almejava naquele momento era a segurança do interior do seu carro com vidros fumê e música alta, que disfarçasse sua alta respiração diafragmática, seus gemidos de dor e seu pânico momentâneo. Caminhava como sempre com os olhos voltados para o chão e não percebeu que alguém lhe esperava no estacionamento.

12/26/2007

A estória de minha própria loucura parte 1 - não sei até quando escreverei pra ninguém ler

Havia um mundo a ser conhecido dentro de sua própria mente. Uma realidade completamente livre de algemas impostas por irregularidades mentais, manias e pseudo-esquisofrenias. Levantou-se a caminhou até a porta do seu quarto. Lá estava pendurado o sino azul que usava toda vez que tinha que sair ao campo pra um lugar onde acha que poderia não conseguir encontrar o caminho de volta. Como sua casa era situada em um local completamente distante da cidade, em meio às montanhas, ele temia se ver perdido na floresta próxima de sua casa.
Bem, pelas suas contas, hoje era sábado. Era uma bela manhã e tudo estava perfeito pois ele havia preparado seu pão e seu chá gelado na noite anterior. Com o sino azul na mão esquerda, ele caminhou com suas sandálias baixas para a cozinha de sua modesta casa, seu refúgio de alguns mundos externos com os quais ele não conseguia nunca lidar. Abriu a geladeira velha e de lá retirou seu chá gelado (chá mate com pitadas de limão) e colocou-o em um copo de plástico amarelo que estava em cima da mesa. Abriu o guarda-pão e retitou uma fatia com uma faca de cabo queimado. Hoje era um dia perfeito pra colher as amoras e pra conhecer um pouco mais da floresta que se estendia diante de sua residência. Mastigou o pão devagar e tomava pequenos goles do chá enquanto contemplava meio que absorto a porta aberta que dava para o lado de fora da casa. O sino azul sobre a mesa aguardava seu ritual matinal terminar.
Levantou-se da mesa e escovou os dentes, colocou uma música e fechou-se no banheiro. Ajoelhou-se no chão e olhou pra suas próprias pernas numa tentativa absurda e esquisita de se encontrar. Sentia medo por estar sozinho mas ao mesmo tempo sentia-se aliviado por não ter que lidar mais com as críticas e com o mundo do lado de fora de sua propriedade. Tinha 36 anos, cabelos curtos e um corpo magro e alto. Chamava-se Jano. E não sabia quanto tempo ele ainda teria que conviver com essa dificuldade de conseguir entender, de conseguir sair de casa e ver outras pessoas. O mundo fora cruel com ele, mas numa proporção normal, a mesma aplicada a todas as outras pessoas que nele vivem. Mesmo assim, ele se sentia como se fosse especialmente machucado pelo mundo, testado até não conseguir mais e preso em seu mundo interno.
"O difícil mesmo era ter que explicar - pensava ele - ter fazer com que todos conseguissem entender como funcionava minha mente pra que elas conseguissem me aceitar e não me achar uma pessoa tão nociva."
Mas não adiantava, tudo era doloriado demais. Ele preferiu a solidão.
Saiu do banheiro de roupa trocada, cabelos alinhados e apanhou, na mesa da cosinha, o sino azul. Se encaminou até a porta e saiu por ela. Um vento lhe refrescou a alma e ele se sentiu confortável, sentimento raro pra uma pessoa em sua condição. Pensou naquele momento que todos os seres viventes do mundo poderiam sentir aquilo, e que apesar de tudo, esse era na verdade um dos maiores objetivos da vida de cada ser: o confortável, seguro...

Desceu dois degraus da escada que terminava em chão de terra, um chão com alta concentração de argila que costumava ficar muito escorregadio quando chovia.

12/13/2007

eu te esperei sob a névoa da manhã
quando esta ainda não havia deixado de ser noite
e você veio trazendo flores
que cobririam meu peito assim que eu deitasse

e um nefasto e belo mundo que eu não conhecia
um universo parelelo que só contemplava em espírito
começou como um ritual ao meu redor
consumindo e cobrando seu preço em moedas nuas

eu me deitei em um solo árido demais
que roubava a água do meu corpo
e com o rosto cadavérico eu lhe observei de pé
dominadora e austera, com as flores na mão

meus pés foram amarrados juntos
para que os passos deixassem de ser
para forçar minha carne a não partir
para que as solas não tocassem mais o chão

e minhas mãos tapavam minha boca
meus olhos reviravam
e meu corpo temia em não sentir
pois o anestésico fora forte demais

chamas dentro de chamas
uma espiral de secreções
humano repentino
eu acordei me sentindo

na alquimia do cinza
na solidão indiscriminada
milhares ao redor
apenas eu em mim

11/21/2007

ENDORAMA


Estou me dedicando muito a esse novo projeto, compondo sem parar. Aqui, alguns poemas musicados:

01 - Uma armadura até a metade do coração

Há lugares pra onde vamos caminhar
Horizontes que tentamos desvendar
Há verdades que não podemos entender
Há instintos que não se podem mais conter

Há amores que só sabemos desejar
Há dúvidas pra quem quer desfrutar
E só as estrelas vão nos entender
Quando ninguém consegue mais nos conceber

Ninguém vai me dizer como eu tenho que viver
Ninguém vai me dizer
Vai me dizer

Portas se abrem para não passar
Caminhos infinitos pra se aventurar
Destinos almejados jogados ao vento
Há portas entreabertas a se derrubar

E há dias em que ninguém sabe o que seremos
Noites regadas ao frio do que parecemos
Há máscaras demais em nossos corações
Armaduras que não protegem de ilusões

Ninguém vai entender o que eu tento dizer
Ninguém vai me dizer, Vai me dizer
Ninguém vai despertar, parar de sonhar
Ninguém vai me dizer porque não sobreviver

E mais ninguém
E só nós dois
Seremos, veremos.......o depois

02 - (Não) Me diz não

se vc quer sair eu vou parar de pensar
por tantos anos isso foi tudo o que eu imaginei
e acordar depois
e encarar depois
não há sentido, não
deixa eu dormir agora
deixar eu ficar de fora
desse mundo sem razão

Me pede logo pra parar
Me para logo pr'eu saber
Só não me diz não
Me diz não!!!

03 - Perfeito

o vento me leva
pra ver o mundo
pra olhar no espelho
e ver quem eu sou

o vento me leva
pra uma praia deserta
pra me descobrir
pra não te ferir

perdoe-me por errar
eu te prometo
serei perfeito

o sol lá fora
me leva pra ver
como nós fomos
todos erramos

perdoe-me por errar
eu te prometo
serei perfeito

04 - Para Letícia

contra o vento me disseram que é difícil caminhar
que é difícil olhar pra frente e nisso tudo enchergar
que na vida tudo é feito e planejado pra nos vencer
que as estradas estão fechadas e não ha futuro a viver

tudo que eu quero é dizer
tudo o que eu quero está escrito em vc
e não há muros pra me parar
e não há vendas pra me cegar

"contra o vento" - me disseram - "vc terá que lutar"
"nada é feito de verdades, belos doces à defrutar"
construimos nossas vidas nas verdades que nos contaram
nos trancamos entre as grades de um mundo que nos empurraram

e não há futuro que vá me prender
nem o presente nem o passado
e não há destino senão o que eu escolher
meus ideais estão traçados

05 - Há dois anos atrás

se um dia eu entendi eu esqueci há dois anos atrás
como a cor que eu vi em seus olhos há dois anos atrás
todas as respostas de todas as perguntas feitas tarde demais
tudo o que eu perdi, eu perdi há dois anos atrás

todos os meus sonhos já morreram há dois anos atrás
todos os amores me deixaram há dois anos atrás
e eu que me perdi por te esperar um pouco demais
tudo o que eu fui eu deixei de ser há dois anos atrás

as páginas em branco que eu deixei não me importam mais
os risos, as cores que se foram a tempo demais
eu que não aprendi a deixar o passado pra trás
vivo meu amor nas sombras de dois anos atrás

há dois anos atrás

e estou livre voando no céu
olhando bem as luzem lá em baixo
procurando o que eu deixei pra trás
toda uma vida a dois anos atrás

e o vento forte me leva pra longe
me faz ver bem todo o horizonte
me mostra o dia depois da noite
me acorda de vez desse sono

de dois anos atrás

06 - A velocidade do som

a distância disse tudo
tudo o que eu não quis ouvir
verdades e mentiras pra me distrair
onde vc foi
o que nos tornamos
por quanto tempo nós vamos esperar?

dentro daquela manhã
vc se foi e me disse
que não ia mais voltar
que ia se internar
pra tratar a loucura do mundo que havia em nós

dentro daquela manhã
palavras que eu não sei
cortaram meu coração e
como se não bastasse não
fiquei só e sem minha razão

tudo que vai
volta na velocidade do som

mas ninguém mais voltou pra mim

a distancia disse tudo
me contou que você foi morar longe
onde minhas cartas não vão chegar
algum lugar bem longe
onde o frio não vai importar

memórias e sonhos
janelas onde posso te olhar
mas não vão te trazer
já é tarde pra crer
que sua luz ainda teima em brilhar

tudo que vai
volta na velocidade do som

mas vc nunca mais vai voltar....

10/06/2007

Uma menina quando chega a puberdade se ente linda e tenta se vestir para uma festa. Ela vai até seu armário e pega o que acha, de acordo com sua concepção, o seu melhor vestido. Ele é porém, um vestido velho. Se encaixa perfeitamente as dobras, às curvas recém modeladas pelos hormônios. Confortável, o vestido parece fazer parte seu organismo. Uma simbiose onde ela dá movimento ao vestido e ele lhe oferece em troca a sua própria beleza.
Ela se olha no espelho e vê o vestido desbotado. O vestido que vestira sempre. Desde de sua infância prolongada.
Ela tinha agora pouco menos de trinta e se sentia agora, bem tardiamente, uma adolescente. Assistia a filmes pornôs e ria baixinho. Tentava conversar com as amiguinhas (essas sim, de 15 anos) sobre beijos roubados e menarcas. Essas porém já falam de sexo, de verdade, em variedade.

A menina se olha no espelho e percebe pela primeira vez que o vestido de todos aqueles anos não serve mais para uma festão tão pomposa pois já está gasto e provavelmente a pequena cidade em que morava já tinha se cançado de vê-la vestida com ele.

A menina pensa em deus, e se pergunta, porque eu tenho o fardo da escolha? Eu tenho uma vida e agora não sei o que fazer com ela. Não posso simplesmente dizer: "não quero ter que fazer isso" e ´parar com essa novela das 8? Deus a deu uma vida e ela tinha que criar seus caminhos, tinha que comprar novos vestidos e constituir família. Ela não podeia viver assim pra sempre. Então o inferno ficou mais quente. A menina percebeu que teria que tomar uma atitude, mas a dúvida de se iria com o vestido mais novo e que lhe pinicava o corpo e a o vestido velho e confortável estava lhe consumindo.

A festa começou. Todos estavam lindos em suas roupas. Algumas velhas, algumas alugadas, algumas novíssimas. E eis que a menina desce as escadas vagarosamente. E todos param na festa para olhar quem era a beldade que descia. Aquela maravilha que não era mais adolescente, já era uma mulher de verdade, mas que ainda não conseguira entender isso. Ela descia devagar, degrau por degrau e os queixos de cada um na festa se abriam para demostrar o quenato estavam lisongeados com a presença da menina.

E eis que surge correndo um dos criados da casa e lhe fala, em tom desesperado ao ouvido:

- Menina, que porra é essa?
- Menina é o caralho, Dona Georgina, sou uma mulher!
- Desculpe, senhora... mas é que a senhora está nua!
- Nua não, tenho os sapatos altos e minha pulseira e meu colar.
- Mas não pode ficar assim na festa...
- Como?
- Não vê que isso é um absurdo?
- Criado, minha vida é um absurdo! O fato desse corpo está se movendo é um absurdo. O fato de haver o que chamam de força divina nesse monte de carne é o que mais me deixa pasma. Eu tenho essa vida, não foi minha escolha ter que vivê-la. Sempre me escondi no passado. Tive que finalmente tomar uma decisão: ou eu continuava no passado, ou eu rumava para o novo. Eu não podeia ficar estática diante de uma vida a ser vivida.
- Mas o que isso tem a ver com roupas? - perguntou então um já mais que enlouquecido criado.
- Tem a ver com as roupas, com as feições, com tudo o que eu externo! Eu não quero o passado, nunca mais, e o futuro óbvio que me oferecem me desagrada. Então, o que tenho a dizer é que de hoje em diante eu contruo meu futuro como eu quiser.

O criado continuava sem entender porra nenhuma, até porque ele não estava na cabeça da mulher. Ela terminou de descer as escadas nua. Quer dizer, nua não, com sapatos de salto alto, uma pulseira e um colar e uma cabeleira linda lhe adornando as costas. Foi falar com os convidados. Não se importou com aqueles que comentavam que ela havia se tornado uma vadia.
No dia seguinte, acordou cedo, ainda de ressaca. Colocou uma roupa de malhar, colada. Olhou pela janela do segundo andar da sua casa. Viu a distância da sacada até o chão. Seria uma bela queda. Então ela se pendurou do lado de fora, colocou o pé em uma quina da parede, segurou em uma outra aresta e foi assim, descendo a parede até lá em baixo. Quando lá chegou, começou um cooper matinal, enquanto o sol terminava de nascer. Em seu mp4, uma canção que repetia sem parar "nothing can stop me now, cause i don´t care anymore".

E todos viveram felizes para sempre.

Verdade


Uma pessoa
De verdade
Sente pouco
Vê mais
A verdade
Em sua fronte
Em sua verdade
Em sua malícia
Em seu ipod
A verdade
No espelho
Na balbúrdia
Na sangria desesperada
Mais ar
Mais líquido
Pra respirar
Uma pessoa
Um ser humano
Um homem de verdade
Vê o mundo
O mundo não o vê
Estático
Paralítico
Com o seu "the road"
Ele deveria se divertir mais
Num mundo
Conceitual
Com bucetas e caralhos
Com verdades de mentira
Mentira
Mentira
Cavalo
Eu tira isso de mim
Mãe me dá
Limpa
Tubo
Metafísico
Tubo
Canudo
Cano
Porra
Uretra
Porra
Uma pessoa
de verdade
Vê a verdade em si
E vê a verdade que emana refletida nos outros
Eu sou de mentira
Eu sou de mentira
Eu sou de mentira
!
!!
!!!
!!!!

9/27/2007

Cap 2

Canavieiras, lá na Bahia. Ficava bem distante da sua casa e além do que pudesse parecer, ela havia ido sim àquela cidade para sofrer e não para desfrutar de suas belezas naturais construídas pelos portuguêses que haviam se instalado ali por volta do séc. XVIII. Havia em um último ato de auto-piedade ido até lá de avião e não de ônibus, mas quando chegou à cidade, sem nada saber, nem seu nível de criminalidade, nem o tamanho dos bairros ou quanto tempo teria que andar para chegar da casa onde ficaria hospedada até uma padaria para poder tomar o seu café duas vezes por dia, pelo menos.
A idéia de ter que se locomover através da cidade por linhas de ônibus a deixava totalmente insegura, não conhecia seus destinos e na verdade, não sabia o seu próprio destino. Pensando dessa forma seria então bem fácil se locomover dentro de Canavieiras. Era só pegar um ônibus qualquer e descer em um ponto qualquer. Ela estaria indo pra algum lugar que na verdade, nem imaginava onde poderia ser. A idéia de total desconhecimento à tomou pelo braço e a fez cambalear e procurar rapidamente por um lugar para sentar. Hvia em seu bolso, o valor para voltar de avião para a sua cidade no próximo vôo, que demoraria cerca de 4h. Mas essas quatro horas de espera já a deixavam anciosa e ela não queria ter que imaginar que ficaria essas quatro horas em um aeroporto, longe, muito longe de seu castelo imbatível com seus pais como guardas e cavalheiros que nunca a deixariam ser atingida por nada nem ninguém.
Resolveu fazer o seguinte, sentou-se e parou para imaginar o que poderia estar acontecendo, que seu corpo estava funcionado e que sua mente estava funcionando, ela estava viva. Suas pernas e braços estavam perfeitos, ela também podia falar, ou seja, a locomoção e a comunicação estavam ainda de pé. Suas dores de êstômago podeiam ser curadas por doses costumeiras de analgésicos e anti-espasmódicos. Tudo o que ela precisava estava ali com ela. Fixou a visão em um parafuso da cadeira onde estava sentada e começou a tentar a esquecer o mundo lá fora. Só importavam ela e o parafuso. Ela foi percebendo que todos os fantasmas que estavam encomodando não podeiam mais falar pois ela havia estabelecido um diálogo, ela só falaria com o parafuso. Ohou seu brilho, sua fenda, ima ginou o contato que deveria estar tendo com o material logo abaixo dele, o qual estava parafusado. Imaginou sua temperatura, sua cor, sua dureza. Viu que sua dor estava passando. Ela começou a conhecer bem àquele parafuso e se tornou completamente amiga dele. Eles já eram tão íntimos que ela pensou: "ei parafuso, se eu passar mal aqui, você vai me ajudar não vai?" E como resposta do parafuso, ela imaginou: "claro, afinald e contas, amigos são pra essas coisas."