12/03/2015

O problema da vida é formato que demos a ela.

A culpa do aumento dos suicídios desde os anos 70 está na verdade no formato que demos a vida.
Um formato que não se encaixa nos padrões de felicidade de ninguém, o que faz com que muitos queiram fugir da vida. Isso é muito triste e a culpa é nossa.

O trabalho está relacionado intimamente, na nossa sociedade, com o quão importante você é. Isso faz com que você trave a sua luta constante para justificar que é sim um ser humano de qualidade, que alcançou altos padrões profissionais, que ganha muito dinheiro.

O mais interessante é ver que as pessoas lutam suas vidas para atingir esse patamar. Nunca estão satisfeitas com o que tem agora e, obviamente, nunca estão felizes.

Quando atingem o patamar elevado, tornam-se muitas vezes amargos, incapazes de sentirem a suavidade de algo mais voltado paras os sentimentos, provavelmente por terem que afogar os seus próprios para poderem chegar a esses elevados patamares profissionais. Seus únicos prazeres se tornam materiais. Consumo. Comprar o que há de mais caro, mesmo que o mais caro não signifique o melhor. Viajar para os melhores lugares, mesmo que não se divirta, mas que exponha nas redes sociais o quão capaz de gastar esse dinheiro você foi.

A vida passa, desgastada, amarga, distante (num futuro que nunca chega). Não percebemos o calor do hoje. Não percebemos o silêncio que existe quando calamos nossas mentes. A paz. Não percebemos que o que temos que fazer é sermos pessoas felizes.

Se você é um médico, seja porque ama ajudar pessoas.

Se você é um pesquisador, seja porque quer produzir conhecimento para mudar algo para melhor.

Se você é um professor, seja porque ama seus alunos e ama ensinar.

Se você é um (a) don(a/o) de casa, seja porque isso te preenche e isso é importante na vida de todos ao seu redor.

Se você é um lixeiro, seja porque ama ver que seu trabalho é essencial e com ele a vida funciona.

Se você é um artista, seja porque a sua sensibilidade colore o mundo de uma forma que ninguém pôde perceber além de você e, ao expor sua arte, você compartilha com os outros a sua forma, que se torna coletiva.

Nós crescemos o que deveríamos crescer. Agora, precisamos viver.

11/10/2015



a tristeza, o vazio, a incapacidade da felicidade de forma plena, o foco nos problemas (dando a eles um peso maior do que o real), o pessimismo, a paranóia, a sensação da fragilidade do corpo, o medo da morte prematura, o desânimo, a vontade de se esconder, a vontade de ir pra longe, a auto piedade, o ato de esperar a piedade dos outros, a sensação de ser incapaz, a certeza de ser um merda, a culpa por estar fazendo tudo errado, a falta de perspectiva de melhora real. a certeza de que irei morrer um dia e, que até lá, continuarei a ser isso. alguém pela metade ou menos da metade.

11/04/2015

É curioso perceber que de uma forma ou de outra, muitos ao meu redor estão sofrendo os problemas da depressão e da ansiedade.

Temos tanta informação que nossos corpos e mentes não estão habituados a tal.

A comparação da sua vida com as vidas dos amigos que postam no instagram parecem gritar alto que a sua vida não é tão legal. Deve-se produzir mais, crescer mais, trabalhar mais. Um dia alcançaremos a honra de podermos descansar com a mente livre de preocupações com produção.

No momento eu não estou tomando nenhum remédio para a ansiedade. Meus amigos estão. Eles conseguem melhorar assim, mas o complicado é que os sintomas retornam ao fim dos tratamentos.

Eu tenho procurado uma mínima paz mental tentando meditar. Agora, me preparo para retornar à Yoga. A disciplina que precisamos para que esses métodos funcionem é gigantesca.

Mas no fim, ainda sinto a angústia de trabalhar com algo que não quero mais pra mim. Gastando meus dias tentando estudar para avançar na carreira... o que, no dia em que funcionar, me proporcionarão a liberdade de um setor de trabalho que aparente não me quer e nem se importa com a minha presença.

Nossos valores estão virados de cabeça pra baixo. Somos uma geração intermediária e por isso, nos sentimos sem "casa", sem "abrigo". Vivemos o mundo da velocidade enquanto nossas raízes estão fincadas no analógico.

Tá tudo errado.


9/04/2015

Em boa parte de nossas vidas é muito comum idealizar uma realidade, uma vida onde tudo segue o padrão da perfeição de acordo com nossas preferências. A vida passa e percebemos que não há nada de sonho, nada de poético ou bonito em viver dia após dia.
O que há de alegria é efêmero. O que há de sonho é inatingível.
Sonhos uma vida multicor, vivemos uma vida cinza.

8/26/2015

 Grão

Deixe-me sóbrio
Pra ver o dia
Que nasce depois
Dessa vida

O rio que se estende
Corre sem direção
E nunca encontra
As ondas do mar

Às asas abertas
Que não sustentam o vôo
Me precipitam
Na gravidade dessa terra

E em todos nós
Apenas a pena
Que se soltou no céu
Está em nossos peitos

Ninguém vai te temer
Ninguém vai te amar
Ninguém vai te salvar
Ninguém vai te perceber

8/25/2015

Eu me causo mal.

Isso acontece basicamente porque estou condicionado a me causar mal. Essa tortura é uma das coisas mais cruéis que existem pois eu não consigo ter nenhum momento de paz.

Eu me sinto mal o tempo todo.

Eu não durmo.

Eu sempre me considero aquém do mínimo. Um idiota, vencido, incapaz, burro, fracassado...

Eu não consigo aguentar isso.

5/10/2015

a língua
sangra a sede
cede a o que eu sei
sabe a mentira que eu contei
nessa noite

o corpo
fantasma do vento
tempestade e leito
solidão em seu próprio túmulo
nessa foice

areia
lábios em um pó
de um passado de mentira
de uma verdade teórica
nessa buceta

e a garganta seca por uma ar de respirar que tem menos gosto do que deveria
vira deserto dentro de alguém que seria oásis

e a tentativa de viver como todos deveriam viver desperta a morte por dentro
deixam os medos entrarem
e a voz se perde

há um suicídio a cada hora que passa
um velório a cada gota de chuva
e tudo o que desejamos é
que isso apenas acabe



4/20/2015

Eu não tenho que fazer nada.
O fato de eu estar me comportando constantemente como uma pessoa em débito faz com que eu me torne uma pessoa que não consiga produzir. A produção, no caso, é profissional, musical e também produção de minha própria felicidade. Eu não tenho praticamente em momento nenhum a sensação de dever cumprido. Parece que estou o tempo inteiro precisando fazer alguma coisa que eu tenho e não quero.

2/15/2015

Bebi o tempo numa água doce
A foice, vestida de seda
Dormi o sono, senti a perda
De tudo o que um dia eu fui

A noite veio, me fez perguntas
E seu escuro manchado me prendeu
E na sombra da verdade de ser eu
Deitei na cama onde o sono não é meu

As paredes giram, estou sozinho
Nem mesmo o espelho me mostra a mim
No quarto aceso de luz sem fim

Olho entre os dedos e lá eu vejo
O fungo velho que carrega meu nome
Minha alma, minha sorte: meu horizonte

1/30/2015

Quando você se dá realmente conta de que tudo o que você sente e quase tudo que acontece na sua vida é culpa basicamente sua, o mundo parece pesar mais um milhão de toneladas.

"Todos tem seus problemas" eu ouvi ontem;
Também ouvi "sendo da forma como você é, você vai sofrer muito ainda".

E a culpa desse sofrimento é apenas porque eu permito, ou quero, ser da forma que sou...

Um dos grandes problemas da vida adulta é que você se dá conta que você é você. Você não é mais só o filho de alguém.

Então, desamparado é uma palavra dramática demais pra descrever, mas acho que deveríamos ser mais independentes mesmo. Estarmos acostumados com sermos mais desamparados.

No fim, estamos todos fodidos.
Mas a culpa é nossa.

1/20/2015



É esquisito.
Quem desenvolve ao decorrer da vida essa espécie de "necessidade de simetria" nunca consegue estar satisfeito. Óbvio, a vida nunca está arrumada simetricamente com a sua vontade. Acho que talvez seja um mal atual, algo que grande parte das pessoas acaba apresentando e convivem com isso sem encontrar respostas.
Mesmo sabendo que a vida nunca vai estar da forma que se espera, quem vive esperando a simetria não vive: é um zumbi tentando agir como um ser vivo. Quem vive assim aguarda o momento de começar a viver e constantemente percebe que isso nunca vai ocorrer, porém, continua a esperar.
E quando você acorda de manhã, tentando entender porque não dormiu mais uma noite com a incansável sensação de que tem alguma coisa errada, e percebe que tudo a sua volta está uma bagunça, todos se segurando em suas falsas sensações de simetria... todos fingindo, aí você mergulha na água gelada e escura da ansiedade. Um outro mal que nos acomete.
O gosto de metal na língua, o frio no estômago, sem senso de direção, ombros pesados e a vida com uma perspectiva completamente negativa. Você não encontra muita coisa que te faça querer levantar da cama. Se sente doente, com febre, sem estar com nenhuma anomalia física ou patologia a não ser a mental.
É muito comum quem se sente assim se afogar em drogas que lhe suguem a realidade.
No momento, a única coisa que gostaria seriam alguns minutos de plena solidão.


3/17/2013

5 horas da manhã. ele acorda e o suor escorre em gotas grossas pelo seu corpo. respira ofegante, mais um pesadelo. levanta-se tendo vontade de se jogar ao chão e vai para cozinha fazer um café (já havia decidido não dormir mais).
a cafeteira enche o ar de sons e cheiros e ele vai se sentindo ligeiramente melhor. senta-se ao computador e abre seus emails. a profunda vontade de se desligar do universo em que não se sente mais conectado perdura mesmo a essa hora da madrugada. se sente só nele mesmo. ninguém teria a capacidade de lhe fazer companhia em todo o vazio que se escondia dentro de sua personalidade.
os spams consumiam seu tempo e eram as únicas coisas que preenchiam sua caixa de emails. entra no facebook e não vê movimentação alguma.
o sol vai acabando de nascer e ele se deita depois do rápido banho. fecha os olhos mas não dorme. pensa e no pensamento descobre algo que lhe faz entender o porque de toda a sua angústia: depois de nascer, ele nunca pôde ser ele mesmo.

2/06/2013

Um conto feito por mim em 2005. Eu sempre escrevi para mim mesmo, como uma ordem de "ACORDE SEU IDIOTA". Esse conto vem para afirmar isso, para mostrar pra mim mesmo que é preciso começar a viver antes que a vida chegue ao fim, que é preciso olhar para fora e para de se preocupar com o mundo interior.


IX - O Abutre

            O sol brilhava como todos os dias mas ele sabia que cada pessoa podia ver o sol de maneira completamente diferente assim como todas as outras coisas que existem. Para ele, o sol era nada mais que a estrela central de nosso sistema solar, não lhe inspirava a poesia e nem à liberdade.
            Rudi gostava de existir em seu mundo extremamente limitado onde toda e qualquer aventura estava além de suas forças. Caseiro, era guiado por sua hipocondria que falava muito mais alto que todas as suas vontades mais absurdas.
            Em um dia mais que normal, ele caminhava até o seu trabalho sem pensar muito em coisas importantes mas preso em uma ansiedade monstruosa que lhe vendava os olhos. Rudi não tinha amigos e se pudesse não trabalharia também, ficaria em casa, longe do convívio com qualquer ser humano. Em sua caminhada diária (ato que para ele era a única coisa que o salvava de problemas mais sérios de saúde) ele não costumava ver muita coisa diferente. Um cachorro latia do outro lado da rua e uma mulher grávida estava agora sentada ao meio-fio, tomando água de uma garrafa térmica. Nesse momento, Rudi percebeu que a sua perna direita havia ficado completamente dormente, uma dormência repentina e extremamente forte. Era impossível ficar de pé. Ele caiu e ficou ali sem saber o que fazer. Com certeza a mulher do outro lado da rua achava que era mais um bêbado, ainda mais pelo jeito desleixado que Rudi costumava se vestir.
            Não podia gritar pois não queria as mãos sujas de ninguém tentando lhe ajudar. Rudi pensou que era finalmente o momento de sua morte. Estava passando muito mal mesmo. Seu estômago produzia um forte desconforto, não dor, mas algo tão incômodo como ou até mais forte.
            A boca se abrira para um grito que não saiu. Metade do corpo de Rude estava completamente imobilizado por uma coisa que ele não sabia o que era. Ele percebia os dedos frios de uma morte anunciada diariamente encontrarem finalmente o seu corpo. Estava caído na rua, não sabia o que fazer.
            Naquele momento, ele se lembrou de tudo o que havia feito as pessoas que o amavam e soube que de uma forma ou de outra, tudo o que fazemos volta pra nós de forma amplificada.
            Há alguns anos Rudi era casado com Mina, uma garota realmente muito companheira e bonita. Tudo o que Mina mais queria era ter um filho mas Rude não queria perpetuar a sua doença, ele não queria um herdeiro para toda a sua fortuna, para tudo o que tinha: seus enigmáticos problemas de saúde.
            Ele gritou com Mina quando ela tentou conversar com ele em uma noite de primavera. A luz enfraquecida do abajur aclimatava o quarto para tudo, menos para as palavras que ela estava ouvindo. O choro lhe veio como uma explosão de tudo o que estava reprimido em muitos anos de casamento. Ela gritou com ele como resposta, e mesmo estando tarde da noite ela resolveu ir embora deixando-o sozinho com as suas companheiras invisíveis.
            No dia posterior ele resolveu se castigar de forma quase impensada parando de comer. Não houve fome naquela semana e com certeza mais uma enxurrada de doenças levava embora a sua vida.
            As árvores plantadas no jardim, as flores que cresciam maravilhosamente sem a ajuda de ninguém, a lua em sua beleza enigmática, nada era apreciado por Rudi. O gosto de metal da civilização era bem mais forte que a poesia viva que o circulava. Seus irmãos e seus pais estavam afastados pois ele não os queria por perto. Mina havia ido embora. A única coisa que ele realmente amava era o seu mundo, um amor negro e vazio que o sugava os minutos.
            Caído ali no chão, Rudi se conscientizou que pela primeira vez na vida estava realmente tendo um problema, algo que não era gerado pela sua mente, mas que estava dentro de seus órgãos. Ele não queria pensar, pensar fazia o seu intestino ficar mais esquisito e aumentava a grande força do sentimento que estava tendo. A mulher grávida já havia se convencido de que não era um bêbado e sim um jovem senhor tendo uma espécie de convulsão. Ela foi em sua direção e começou a gritar por ajuda.
            Rubi estava vazio por dentro, ele queria sentir a mão de Mina em seus cabelos, como ela gostava de fazer quando ficavam abraçados. Queria sentir o cheiro das flores que sempre estiveram ali e nunca foram aproveitadas. Queria naquele momento poder abraçar algo que nunca desejara, um filho seu.
            A dormência se tornava tão grandiosa que ele não sentia mais o seu estômago e nem o seu intestino. Os braços e as pernas estavam paralisados assim como todo o resto de seu corpo. O rosto virado para cima, mantinha os olhos fechados em sinal de profunda ausência. Rubi estava se preparando para morrer.
            E como último ato, como se fosse uma rápida corrida de volta para uma última espiada, ele juntou toda a força de vontade que ainda lhe restava e abriu os olhos. Ele viu o sol, como nunca tinha visto até aquele dia. Viu a sua própria vida emanando de estupenda força que brilhava no céu e nos raios que saiam dele. Viu a liberdade que ele tinha de iluminar tudo sem precisar pedir. Rubi estava maravilhado com o azul do céu, com as esporádicas nuvens que o adornavam e com as aves que voavam alto. Viu também as folhas de uma árvore que estava perto balançando enquanto o vento batia nelas como uma carícia constante.
            Os olhos foram fechando devagar. A visão de pessoas tentando lhe ajudar era a sua derradeira imagem. Mas uma coisa aconteceu sem que ele pudesse entender, o som dos galhos daquela árvore que havia visto segundos antes estavam sendo percebidos por ele agora. E como eram bonitos e suaves aqueles sons. Eram a única coisa que preenchia a sua mente além dos momentos não aproveitados da sua vida que lhe passavam como flashs. Os sons foram ficando cada vez mais constantes quando ele ouviu uma sirene de ambulância. Não adiantava, Rudi já se sentia sem concerto por causa dos danos em seu corpo que com certeza deveriam ser muitos.
            Sentiu mãos que o seguravam e percebeu que novamente havia recuperado o tato. Tentou abrir os olhos e conseguiu, mas a visão foi apenas o cinza de um teto. Não sentiu mais nada por muito tempo.
            —Rudi. Acorde Rudi. Abra os olhos por favor!
            Em seu estado de torpor ele apenas reconhecia levemente uma voz em seus ouvidos. Não se lembrava de nada por muito tempo enquanto esteve perdido em sono constante. De repente, a sensação de estômago vazio e um gosto estranho foram percebidos e o ar resolveu parar por um instante, logo quando ele mais precisava.
            Rudi abriu os olhos e viu um rosto entristecido lhe velando. Era a sua mãe. Ao seu lado estava Mina e um olhar de misericórdia. A doença sempre trazia todos de volta, sempre o tornara o centro das atenções e era isso que ele queria de forma impensada.
            Ele olhou em volta e percebeu que estava internado e parecia que estava ali por muito tempo. Tubos saíam do seu corpo e entravam em máquinas. Suas mãos estavam magras e sua pele extremamente branca. Rudi, pela primeira vez percebeu a realidade do que é estar doente e incapaz.

10/15/2012




Duras, as palmas acolhem o pó
Chove, porém não há som...
Caolho, desenvolve passos
Entreaberta, a porta lhe aguarda

Só, aconchega-se no desespero
Gelado é até o vento que a chama empurra
Esfarelada, a pele dos lábios se estica
Luminosos, os dentes conhecem o sol

Ele encerra todo fim, último!
Ele descobre então assim, sóbrio,
Já tão perto de cair, morto...
Que não há de quem partir.

9/25/2012


A sensação de viver impregnado pela cautela me dominou por completo. Nada é perigoso, tudo é calculado em seus prós e contras nos mínimos detalhes. Quando há uma real possibilidade de ruína, por mais sutil que seja, afasto a idéia.

A cautela, essa em específico, pode ser confundida com o medo. No meu caso, a cautela é a pura evolução de um medo crônico que me acompanha desde que me entendo por ser pensante.

A vida se torna um quadro em sépia profundo quando se vive em cautela. O momento mágico é aquele em que ao voltar do trabalho, bebe-se café assistindo TV, programas repetidos aos quais já são conhecidos começo, meio e fim.

Eu sou bom em começar coisas. Péssimo em terminar.
Nunca consigo me desprender de algo que não dá mais para sustentar.

Eu sou também perfeito em me esconder. É comum eu passar dias inteiros sem ser eu. Na verdade, acho que eu já morri em meio à cautela, ao morno, ao conforto cortante que sufoca.

Hoje foi difícil. A angústia foi tão forte que eu a sentia correndo nas artérias. Senti meus pulsos borbulhantes, um desespero que não podia continuar. Dirigi por algum tempo em total anestesia. Catatônico, não sabia para onde estava indo. Até que tracei um destino, apenas para poder ir até ele.

Senti vontade de pegar a estrada. Ir até qualquer lugar. Voltar logo depois (não conseguirei nunca partir sem olhar pra trás) para a mesma cautela de sempre, para o mesmo medo, confortável medo.

Então eu ouvi uma música, que me lembrou de um livro, que me lembrou de uma cena de um filme e então eu me senti um idiota. Pela primeira vez em muito tempo (anos eu acho) eu consegui chorar por alguns segundos. Não lágrimas escorrendo. Choro mesmo.

Respirei mais livre depois dessa merda toda.
Não sei o que o futuro me reserva, mas vou começar a ensaiar alguns atos não cautelosos. Quem sabe um dia eu me lembre de quem eu deveria ser.


8/09/2012

Como uma sombra
Me falta substância

Como uma imagem no espelho
Sou o decalque do que deveria


5/28/2012

Precisar estar alerta o tempo inteiro é um grande problema para quem não está em meio a uma guerra. Porque será que eu sempre estou com a guarda levantada? Eu Pereira de dormir novamente. Não consigo desligar. Acho que preciso de ajuda.

4/15/2012




Tarde da noite, na pequena cidade de Edimburgo dos Sete Mares, John Lavarello caminhava por uma das poucas ruas da cidade que se resumia a menos de 300 habitantes. Ele se sentia sozinho por mais que estivesse cercado por sua família e seus amigos. Absolutamente nada que havia acontecido em toda a sua vida havia lhe chamado a atenção. Ele desprezava sua vida sem valor.


Tentando lidar com o vazio, John imaginou o que poderia acontecer se inesperadamente ele desaparecesse. Sentiu que ninguém notaria sua falta com poucas exceções. Claro, essa previsão se baseava nas horas ou dias que se seguiriam a seu sumiço. Meses depois todos os habitantes já estariam tentando recordar-se do que o jovem mal encarado e quieto fazia.

John acende um cigarro enquanto olha ao longe algumas ondas mais altas se quebrarem. O dia seguinte será feriado, não há nada pra fazer a não ser se sentar em algum lugar e beber até ficar dormente.

Ele se levanta com uma dificuldade anormal. Não sabe o que está acontecendo. Suas pernas não lhe obedecem mais. O chão se aproxima do seu rosto rápido demais para mesmo emitir um grito e, no instante seguinte, quando recobra os sentidos, está no chão, de bruços e com a cabeça virada para o lado. Não consegue mover nenhum músculo. Nem mesmo pisca. Sua pele esquenta e fica vermelha. Sua respiração e batimentos cardíacos se reduzem tanto que quase são imperceptíveis.

A noite passa e John nada pode fazer. Apenas olha a paisagem solidificada de sua cidade ao dormir.

Quando o sol começa a aparecer, fazendo seus olhos doerem com suas pupilas dilatadas e solidificadas (o que permite a entrada de uma quantidade anormal de luz), as primeiras pessoas começam a sair de suas casas. Não demora muito para alguém encontrar seu corpo.

- Oh meu deus, alguém se feriu!
- Ele está morto?
- Não sei...
- Encoste nele homem! Se ainda estiver vivo, temos que tentar salva-lo.

Os batimentos do coração e a respiração nem são percebidos, mas quando viram John com o peito pra cima para tentar uma massagem cardíaca, percebem que sua pele está quente. Como se queimasse de febre. Concluem que ele está vivo, mas não conseguem explicar como. O levam para a enfermaria da cidade e tentam faze-lo melhorar.

Nos calendários da cidade, o ano de 1965 se perdia à deriva, como uma embarcação em alto mar.

Deitado na cama com seus olhos semi-abertos, John se espantou em ver seus pais se revezarem com seus irmãos para cuidar dele. Rezando todos os dias, dando banho em seu corpo paralisado e que teimava em não esfriar, mesmo com medicamentos fortes para a febre.

Amigos o visitavam sem parar. Deixavam presentes, dinheiro, remédios. Choravam muitas vezes. Mas John não conseguia se mover mesmo assim.

Os anos se passaram e John podia ver que seus pais aparentavam cada vez estarem mais velhos. Seus irmãos antes pequenos tornaram-se adultos, passaram a lhe visitar com as esposas, depois com os filhos e com os netos. Primeiro sua mãe não vinha mais e seu pai, muito velho e debilitado conversava com ele dizendo que brevemente não estaria mais ali para cuidar dele. Beijava-lhe a testa sempre quando chegava e quando partia.

John viu seus irmãos ficarem com cabelos brancos e magros. Os viu sendo trazidos com a ajuda de seus netos, que já estavam casados e com filhos. E por fim, nenhum de seus irmãos ou amigos vinham mais vê-lo.

Mudaram-lhe para um outro quarto. O teto era mais baixo, mas o cheiro era melhor, mais fresco. Os médicos usavam cortes de cabelo diferentes. Suas roupas mudavam muito de estilo enquanto ele observava os dias passarem.

E os bisnetos de seus irmãos ficaram velhos e carecas. Ele nunca mais os viu de um tempo em diante. Ficava lá, deitado sozinho, queimando de febre, respirando quase nada e com o coração praticamente parado.

Uma forte chuva começou a cair do lado de fora. John piscou brevemente. Sentiu frio e percebeu que seus dedos voltavam a ter tato.

Levou dois meses para John conseguir se movimentar normalmente, dobrando suas articulações há tempos paradas. Sua respiração e batimentos cardíacos voltaram ao normal. John não havia envelhecido nem um dia sequer. Até o pequeno corte em sua face, que aconteceu quando caiu no chão, ainda estava lá.

Caminhou até uma tela colorida que mostrava as horas e a data.

5 de abril de 2193.

Chorou. Havia perdido tudo no tempo, evaporado diante de seus olhos. Tudo o que ele tinha e que ele nunca havia prestado a atenção. Todos os bens que ele nunca mais poderia recuperar: as pessoas que o amavam.

Não há relatos de nenhum caso médico parecido com o de John em todo o mundo. Sabe-se apenas que ele entrou em uma espécie de condição de hibernação extrema que pôde ser revertida naturalmente depois.

Quando ele finalmente saiu do hospital, a pequena ilha de Tristan da Cunha não era mais a mesma. Não tinha nem um décimo da beleza e poesia de antes.

Ele foi levado a seus parentes ainda vivos. Descendentes de seus irmãos.

Morreu com 105 anos de idade (se forem subtraídos os anos em que ficou hibernando). Casou-se logo, teve 5 filhos e amou a todos a cada minuto de seus dias.

___

Todos somos especiais. Por mais que a vida não reserve nada de estupendo ou grandioso, o fato de estarmos vivos é em si um maravilhoso motivo a ser comemorado.
O amor é a lei universal. Está acima de todas as leis e mandamentos.

1/13/2012




Voando
Cada um constrói asas
Do tamanho que pode
Para altitudes que almeja

Caindo
Ninguém lhe arranca as penas
O chão é um auto-presente
Para quem almeja o abismo




Cinematic Orchestra - To Build A Home by cecilen

11/06/2011


Muitas pessoas me perguntam se eu sou ateu. Muitas ainda me perguntam se sou satanista.
Bem, neste post vou falar brevemente o que eu sou.

No ocidente, a grandiosa parcela das pessoas que escolhe uma religião (ou nasce numa), acaba dentro de uma Cristã. Eu mesmo fui batizado e criado dentro da Igreja Católica. Durante um bom tempo eu permaneci em total ateísmo até que eu percebi que eu acreditava em algo, porém, de uma maneira muito diferente das pessoas que estão ao meu redor.

Comecei a buscar alguma religião ou segmento religioso que estivesse ao menos de acordo com minha forma de pensar. Estudei muito sobre religiões orientais e me identifiquei muito com a filosofia Hinduísta. Li sobre Budismo e achei maravilhoso, porém, não para mim. Mas muitas coisas ainda não se encaixavam.

Sim, fiz o trabalho contrário do de muitas pessoas, não entrei numa religião e a segui, formulei minhas crenças e iniciei minha busca por algo que se encaixasse nelas.

Encontrei a Wicca. Li muito material sobre essa religão. Entendi certo e entendi errado muita coisa, pois, por questões de cultura pop, esta acabou se tornando uma espécie de moda.

Procurei a Bruxaria Tradicional e encontrei pela primeira vez o conforto que eu esperava.

Eu acredito que todos que olham para a divindade esperando encontrar algo, olham para a mesma direção. Todas as religiões, ocidentais ou orientais, monoteístas ou politeístas, novas ou antigas, buscam a mesma força divina. Alguns, desenham essa força com um rosto mais detalhado, outras, subdividem-na em diversas faces com significados e simbolismos diversos, outras a dividem em masculino e feminino. Mas ao fim, todos rumam para a Divindade, para Deus, Javé, Krishna, a Deusa Mãe e o Deus Cornífero.
Na minha humilde perspectiva eu olho apenas para a Divindade e não a entendo e nem tento entender. Percebo que a Divindade é muito maior do que eu poderia ser em toda a minha existência e apenas a contemplo e tento ser, de alguma forma, parte dela.

Toda vez que eu acabo dizendo que sigo a Bruxaria Tradicional as pessoas acabam me satirizando. Eu aprendi que é importante aceitar o caminho que cada um escolhe com respeito.
Sou extremamente crítico, e critico sim muitas religiões, mas meus argumentos estão na atividade do homem, que vem transformando a religião numa empresa cada vez maior, se afastando do tema principal.

Assim, continuo minha busca. Procuro ser uma pessoa correta e ética independentemente de em que patamar minha religiosidade e fé estão.