Ofereça o doce fácil da polpa, mas nunca deixe de oferecer o poder germinativo e a dureza da semente.
9/01/2007
Escorrendo pela fronte de quem não vê
a verdadeira síntese das engrenagens
Há carne e vísceras que pendem
De cabides fantasmagóricos
Quem é a âncora da minha alma?
Nós, que por pouco não cortamos os pulsos
Engrenamos dia a dia em uma espiral
De erros e dores, luxúria e rancor!
Corroendo as perspectivas e chamando-nos de filhos
Expulsa essa razão de meu crânio
Vai embora, entendimento!!!
Não constrói em minha cabeça mais um túmulo
Para que eu enterre meus sonhos impossíveis!!
Ah, quão ambígua pode ser a existência
Viver amando a morte e morrer, sem nada saber sobre a vida
Cuspir naquele que deveria amar
Amar aquele que deveria repudiar
E com os olhos marejados de um líquido que
Não é lágrima e não é suor, escrevo essas, como últimas
As palavras que pronuciarei.
Ah sonata tão breve
Ah corpo tão triste
Ah, alma! De que elemento você é feita?
De onde nasceu, porque nunca morreu?
Destina meu sofrimento a encarar a miséria de viver.
(poema dedicado àqueles que lutam sem saber porque, e aqueles que sabem o porque, mas não lutam, aguardando a morte)
8/17/2007
Em minha sorte, a duraze de tentar
Percorrer os caminhos que a gravidade
Impuseram a meu destino
E as lanças que as árvores fazem
Na loucura jazem, trazendo a cor
Tingindo a dor que movimenta
O ar que eu corto ao andar
Em todos existe a herança da morte
A tristeza do e o cheiro do amanhã
E o enigmático poder do sangue
E em todos existe a fúria
Como o mar em tempestade
Como na impaciência da loucura
8/16/2007
Minha Canção - Novela parte 2
- Meu deus! - finalmente os olhos impacientes da multidão conseguiram encontrar a origem dos gritos. - O que aconteceu aqui?
As perguntas, o desespero, a carne completamente deformada aos seus pés. Iohan havia esfaqueado dezenas de vezes o corpo do homosexual que não lhe deixava em paz. Andava armado pois fazia parte de uma seita satãnica que proporcionava essa atitude. As roupas pretas, um pentagrama invertido, a cabeça raspada mesmo com o ríspido frio invernal de seu país. Ele queria ser homem, muito mais do que aparentava. Agora, já não sabia o que era, monstro ou criança."
- Senhor Thiago, o que aconteceu? - perguntou em meio ao susto causado pela minha queda.
- Romeu, acabei de pisar em algo que me transpassou o pé!
Haviam muitas coisas que eu não conseguia entender naquele momento. O céu se abrindo, mostrando as estrelas que há muito não ficavam expostas, o sonho da noite anterior, onde eu estava na Europa, a visão de uma menina vestida de preto e branco sendo atropelada por mim e a história de Iohan que não me saía da cabeça desde que havia tomado a decisão de me matar. Preferi não contar à Romeu nada disso, pois sua mente cética não conseguiria conceber tais fatos. Fitei novamente o céu e verifiquei que ele continuava fechado como antes: uma expessa camada de gases que impedia que o sol causasse o câncer (o grande regulador da quantidade de vida na Terra).
Romeu me ajudou a ficar de pé, e me arrastou até um banco onde ue pude constatar que havia encontrado meu objeto Maia. Ele havia transpassado meu pé.
Finalmente quebrei o silêncio:
- Romeu, você conhece o livro "Andando em Carrosséis"?
- Sim senhor, minha mãe leu pra mim quando era criança, é uma livro infantil muito famoso.
- Você sabe porque seu autor não é divulgado?
- Não senhor.
- Seu nome era Iohan, nunca conheci seu sobrenome. Em uma noite, assassinou brutalmente um homossexual que lhe tentou beijar. Foi preso e condenado a prisão perpétua pelo crime bárbaro cometido. Dentro da prisão, contam que ele ficava muito tempo do seu dia sentado em um canto da cela escrevendo anotações que ele dizia que eram seu diário. Quando se enforcou, depois de ser estuprado, suas anotações foram lidas e convertidas nesse livro. Um livro infantil, criado por um monstro.
- Senhor, eu me sinto agora filho de um monstro, tendo em vista que muito de minha personalidade infantil foi forjada pelo livro.
- Não, Iohan deixou de ser um monstro assim que olhou o céu naquela noite e percebeu o que toda aquela dor poderia lhe mostrar. E a dor sempre quer mostrar algo Romeu, assim como essa dor do meu pé que eu agora procuro compreender. A dor mostrou para Iohan que o senhor forte que ele almejava, nunca oderia ser. Ele descobreu ser uma criança, sozinha, com medo e jogada no mundo. Ele criou o livro para si mesmo e com isso conseguiu suavizar a solidão de muitas pessoas.
- E então, por isso, o senhor acha que essa dor causada pela faca Maia significa algo?
- Talvez, quanto tempo espera viver nesse mundo Romeu? Até que tipo de morte?
- Não muito, mas não sei como morrerei.
- Eu sabia, até agora...
8/09/2007
Minha Canção - Novela parte 1
- Senhor Thiago, não faça isso...
- Romeu - interrompi - a cada homem deve ser dado pelomenos a chance de escolher como ele vai morrer.
- Mas, não agora Senhor!
- Procurei, mas não encontrei em nenhum lugar da minha mente motivos que fossem bons o bastante para eu não vir até aqui e completar meu plano. O problema é que eu o perdi, não sei onde caiu...
Romeu suavizou o semblante. A peça perdida realmente era de valor alto na próxima atitude que eu pretendia tomar. Ela havia sido achada em um túmulo de uma das civilizações mais antigas da américa do sul, a Maia. A análise desse objeto e a conecção do seu significado, assim como o significado do próprio nome dessa civilização me levou ao atual patamar. Não Há porque continuar a ser uma pessoa viva, encarnada (seja lá como os espíritas e budistas costumam alegar) pois somos apenas objetos.
Romeu tentou se antecipar em nossa caminhada que nos conduzia de volta ao meu local de partida. Ele olhava para os lados, como se fosse um fugitivo enquanto eu andava devagar olhando para o chão procurando o pequeno objeto.
Nesse momento, eu me lembrei de uma das minhas mentalizações criativas que por muitos anos povoou meus sonhos. Eu sonhava com nanocriaturas criadas por mim que poderiam se vingar de todos os meus inimigos invadindo correntes sanguíneas e tirando-lhes a vida. Naturalmente seria uma morte completamente atípica e impossível de caracterizada por qualquer tipo de legista. Ao mesmo tempo, eu pensava em como essas nanocriaturas poderiam servir para destruir grandes doênças da humanidade, como o câncer, tendo a capacidade de chegar e reconhecer as células malvadas distruindo-as. Mas para que eu resolveria doenças? Estava claro que essas serviam para controlar o crescimento do vírus humano sobre a face da Terra. Observe a História dos Maias querido leitor, onde seu declíno teve início quando não conseguiram conter o tamanho de sua população, provocando inúmeros problemas de sobrevivência, organização e de alimentação. Não conseguindo manter o povo alimentado, logo vieram as pestes e, por fim os espanhois.
Maia (ou Maya) significa ilusão. Um povo perfeito, uma maquete de uma civilização que se refletiria depois no resto do mundo. Seu início, seu meio e seu fim ocorreram em tempo resumido para que tudo pudesse ser antes testado. Estamos fadados aos nossos próprios excessos. Ao crescimento desordenado da humanidade até que esse planeta não nos queira mais sobre ele e "como um cachorro que se livra das pulgas num saculejo" nos mate.
- Romeu, eu sou velho, e não sei ainda hoje o porque de eu ter vivido até a idade que tenho.
- Senhor, a morte não é a solução....
- Não procuro a morte como solução pois não tenho problemas. E nem a procuro como ideal, pois os ideais não me interessam mais. A morte é apenas a potencialização do que eu já sou: vazio.
E quando dizia em voz alta aquelas palavras, pisei em algo pontiagudo que o transpassou meu pé direito. A dor me fez cair ao chão e fitar o céu, exatamente para poder olha-lo e perceber que a sua cortina cinza que se manteve assim por 20 anos estava inexplicavelmente se abrindo...
6/08/2007
A tristeza do poema é a dádiva
O cálice que só o poeta ousa entornar
Traz a morte como companheira ilustre
E deixa a suave brisa se distanciar
A tristeza do poema nos torna fortes
Nos demonstra o quão humanos podemos ser
Esquecidos em quartos solitários
Ou solitários em meio a multidões
A tristeza do poema é a sanguessuga
É o carrasco e a colina abaixo
É a escada e a espiral
A tristeza do poema é o machado
É a rosa e o frio invernal
É o sorriso, a felicidade impostora irracional
08.06.2007
5/24/2007
Um dia vivo

Nuvens brancas passando no céu
Elas me levam para algum lugar
Caminhando a 100 por hr
Eu não sei onde vou chegar
Pérolas falsas enfeitam a mesa
Brilham o vazio do lugar
E eu me escondo dentro de meus medos
Onde nem a sorte vai me achar
Mas pra onde ir se eu não quero andar?
E pra onde ver se o que eu vejo é o que me faz continuar?
E pra que tentar se nós sabemos o que somos?
E pra que lutar se a luta nunca é o que esperamos?
Feixes dourados de um sol que não é meu
Ilustram mais um dia sem razão
Me deixam sozinho no meu mundo
Onde meus pés não chegam ao chão
Mas pra onde ir se não há caminho pra andar?
E pra onde ver se todos que eu amo me tentam derrubar?
E pra que tentar se nós sabemos o que somos?
Infinitos enquanto podemos continuar a sonhar...
5/15/2007
4/15/2007
O RISO DO MUNDO

—Amanhã será o mesmo dia de hoje – ele disse para o espelho, em sua casa mais que espaçosa onde morava solitário.
4:30 de uma manhã igual a todas as outras. Nada parecia fazer muita diferença na vida de Bram. Todas as coisas pareciam totalmente desinteressantes para um homem que tinha tudo e que se não tinha, mandava comprar. As doenças haviam sido despejadas de sua mansão em um ralo de ouro, e todos os outros que antes dividiam sua grandiosa morada estavam agora ou debaixo da terra ou em outra parte do país. Ele havia se cansado das festas e do sexo de graça e sem amor. Foi quando resolveu que uma mudança poderia acontecer em sua miserável vida, se ele realmente encontrasse o amor verdadeiro.
Na tarde seguinte da descoberta que ele mesmo conseguira com o seu reflexo no espelho (conversar com espelhos era natural para Bram) ele resolveu viajar para Paris. Em algum lugar estava escrito que essa era a cidade do amor. Estranhamente Bram resolveu colocar um belo exemplar de um livro que adorava na cabeceira da cama que deixaria desarrumada. Ali estavam páginas escritas à mão, sobre o texto do próprio livro, onde ele descrevera o sonho daquela noite. Não soube porque, estava fazendo com que o sonho fosse transposto para a sua vida naturalmente, sem esforço.
Quando a caneta finalmente terminou de ser usada ele hesitou em continuar. Olhou para a fina pele da parte de dentro do seu antebraço e resolveu quase simultaneamente fazer o que fez: um golpe com a ponta da caneta em uma pele antes perfeita. O furo deixado pela esferográfica foi ligeiramente profundo e o sangue escorria devagar. Olhou para a janela que estava aberta e percebeu o tom avermelhado que o céu demonstrava, o lindo e perfeito céu vermelho, a única coisa capaz de fazer com que um leve sorriso fosse dado por Bram. O riso da contemplação, da agonia da dor em seu antebraço, do nervosismo pela sucessão de fatos e imagens tão nítidas em realidade quanto em sonho. O riso do mundo, o riso de quem tem o mundo. O riso de Bram, o vazio.
As lágrimas misturadas ao sangue soariam muito estranhas a qualquer um que entrasse agora em seu quarto, mas ele estava seguro de que isso não aconteceria pois ele havia dispensados todos, inclusive os serviçais.
Três páginas depois da última página usada para relatar o sonho Bram ele batizou com três gotas de sangue. Três páginas antes da primeira usada, ele pingou novamente as três gotas e na terceira página de seu texto ele pingou as últimas três.
—Sangue e poema. Tudo o que eu sempre achei ridículo!
Saiu do quarto levando apenas a carteira e uma caixa de papel descartável. Deixou o livro fechado e a janela aberta para que tudo o que quisesse invadir a sua vida entrasse sem pedir permissão. Ele sabia o que tinha feito e sabia também que poderia ter boas visitas, mas que as janelas estavam abertas também para todo o mal que quisesse entrar.
Chegou ao aeroporto e estava se sentindo mais vazio do que nunca, ele precisava rápido de algo para corrigir isso e qualquer coisa serviria, vindo de onde viesse. Imaginou o mundo sem ele e chegou a conclusão de que nada de diferente aconteceria. Sua insignificante presença só era importante quando dizia respeito aos negócios e disso ele já estava farto. Pela primeira vez na vida ele havia chagado a essa conclusão de uma maneira clara. Sua luta que durara desde sua juventude, a mesma que havia feito com que seus bolsos ficassem cheios de dinheiro era agora desvendada como um fardo pesado que aparentemente o consumiria até a morte ou até ao extremo da riqueza. (CONTINUA)
O RISO DO MUNDO (Parte 2)
O avião estava pronto para o embarque. Ele se desprendeu de seu mundo interior e se levantou. O único que não despachara nenhum tipo de bagagem. Estava apenas com a roupa do corpo e o bastante em contas bancárias que poderiam ser acessadas a qualquer momento e qualquer lugar do mundo para que todas as suas necessidades fossem sanadas.
Embarcou então. Por um breve momento ele não sabia mais o porque da viagem e concluiu em fração de segundos que era pra fechar mais um negócio. Ridiculamente ele se sentou. Sua face estava com o mesmo ar enrijecido de sempre. As mãos estavam juntas no colo e o olhar fixo em algum lugar da parte de cima do interior do avião. Passava um ar de dureza e de respeitabilidade. Lembrou-se do sonho e olhou rapidamente para o antebraço. O que estava ali não se podia ser explicado por palavras normais. O nome Amada estava escrito nitidamente pelo sangue que escorreu e coagulou da ferida aberta pela caneta. Desconsertado, Bram se levantou para lavar aquele sangue, mas não conseguiu chegar ao banheiro do avião pois uma das aeromoças o advertiu que o avião já estava para decolar e que ele teria que se sentar. Intrigado, Bram se lembrou das três mulheres que estavam em seu sonho. Uma delas tinha um livro sob o braço esquerdo. Ele não conseguiu entender o que estava acontecendo mas conseguiu saber seu nome como que por telepatia. Amada.
Um repentino medo de adormecer durante a viagem o invadiu. O medo de saber quem era Amada e as outras duas era forte demais. O rosto que passava a dureza de uma rocha agora parecia um iceberg.
De repente, duas horas depois de estarem voando, um aviso do comandante foi dado pelos auto-falantes do avião: “Atenção passageiros da aeronave nº36925, entraremos agora em uma turbulência de intensidade mediana, executem por favor os procedimentos de segurança para que ninguém se machuque”. A turbulência começou em menos de cinco segundos após o aviso do piloto e era muito mais forte do que “mediana”. A força era tanta que os passageiros que se encontravam sem os cintos de segurança foram jogados ao chão. Bram se sentia mal, não por saber que a possibilidade de perder sua vida era muito forte, mas por saber que se morresse, de nada haveria valido seu esforço. A perda da juventude. As noites mal dormidas por causa dos estudos e de todas as rotinas de trabalho. Nada disso era importante agora. Todo o seu dinheiro não valia nada lá em cima. Todo o seu esforço era menos que um centavo. Toda a sua vida era inexistente. Bram já estava morto e só percebeu naquele momento.
Sua cabeça se chocou fortemente contra alguma coisa que não conseguia identificar e ele perdeu os sentidos. Estava agora viajando para um lugar que não sabia onde se encontrava e não sabia se poderia voltar ou se poderia ter o que tinha em toda a sua vida daqui pra frente. Abriu os olhos e viu que ainda estava dentro do avião. Olhou o relógio e viu que apenas poucos minutos haviam se passado, mas o mais interessante é que o avião estava completamente vazio. Olhou desesperadamente pela janela para ver se estava ou não no ar mas não conseguiu tirar nenhuma conclusão, havia uma névoa que cobria a janela do avião que fazia com que a visibilidade fosse zero.
Levantou-se e preparou para abrir a porta. Não havia som algum, nem a sua própria voz parecia sair. Olhou para o braço e viu o nome e se lembrou do que tinha feito.
Quando o ânimo finalmente venceu o desespero que havia se instalado naquele instante ele levantou a cabeça e segurando fortemente a maçaneta da porta, a abriu. Nada aconteceu, apenas a luz que brilhava forte do lado e fora invadiu o avião. Ele estava em terra. (CONTINUA)
O RISO DO MUNDO (Parte 3)
Bram havia percebido que estava em terra assim que abriu a porta do avião. Quando finalmente conseguiu perceber imagens na extrema claridade ele conseguiu ver árvores e alguns dos tripulantes sentados no chão, a espera e alguma coisa. Ele correu mais rápido que podia e chegando lá perguntou:
—O que aconteceu? O avião caiu?
—Fez um pouso forçado – respondeu alguém.
—Alguém se machucou?
—Só você. Como está se sentindo? A batida da cabeça foi muito forte?
Bram levou a mão até a cabeça e descobriu um enorme inchaço. A batida realmente parecia ter sido forte.
—Quem é você? – perguntou Bram.
—Me chamo Beatriz.
Bram havia notado que Beatriz era umas das aeromoças que estavam na aeronave. Foi ela que não permitiu que ele fosse lavar o antebraço avisando que o avião estava para decolar.
O nome, esse nome que ele não entendia o que queria dizer. Ele desdobrou a manga da camisa e tentou cobrir para que ninguém pudesse notar. Ele tinha que entender o que aquilo queria dizer.
Se sentou ao lado da aeromoça que havia chamado a sua atenção por sua beleza, mesmo estando desarrumada e com a maquiagem borrada. Sentiu seu cheiro e pela primeira vez na vida não se sentiu tão perdido e sozinho. Sabia que tudo o que ele era e tudo o que ele tinha não adiantaria nada no lugar onde eles estavam agora. Finalmente ele era igual a todos os outros. Nem menos, como era em sua infância, e nem mais, como costumava parecer depois de seu sucesso empresarial.
Olhou para Beatriz e ela não parecia estar muito contente. Visualizou cada um dos passageiros agora aguardando na sombra de uma árvore que ficava perto de onde a nave havia feito o seu pouso forçado. Olhou novamente para Beatriz e disse:
—Desculpe, mas não disse meu nome. Bram, muito prazer.
Estendeu a mão para Beatriz e ela lhe proporcionou o aperto de mãos que estava esperando, seguido de um sorriso que era no mínimo forçado.
—Como estão as coisas para nós? – perguntou Bram.
—Não muito boas. Aparentemente, ninguém consegue fazer contato. Acho que vamos ficar aqui por um bom tempo. Nem sequer sabem onde estamos.
Bram não se sentiu desesperado. Ficou apenas pensando se isso era resultado de sua pequena magia antes de sair de casa. Ele queria fugir daquela vida onde tudo era previsível e havia conseguido uma situação totalmente imprevisível. Levantou-se e ergueu sua mão para Beatriz.
—O que você quer fazer senhor? – perguntou ela ainda mantendo a sua postura de aeromoça.
—Descobrir algum lugar onde possamos esperar. Um lugar onde possamos conversar para passar o nosso tempo. Gostaria muito de saber sua vida. (CONTINUA)
O RISO DO MUNDO (Parte 4)
Relutante, ela pegou a mão de Bram. Estava pensando que não era um bom momento para tentar seduzi-la. Caminharam sobre uma areia fina que parecia nunca ter sido pisada por alguém no mundo. E viram a praia ao entardecer. Sem motivo algum ela o abraçou e encostou a sua cabeça em seu ombro. Ele encarou aquilo como a coisa mais natural do mundo, como se ela já fosse uma pessoa que fazia parte de sua vida e que estava repetindo mais uma vez um ato muitas vezes antes feito.
Ele perguntou a ela o que a estava deixando triste, porque sabia qual era a diferença de se estar triste e estar preocupado. Ela lhe disse que as vezes a vida tenta nos dizer algo mas nós não entendemos, como no dia em que sua mãe, Amada, uma pessoa ótima, morreu de uma doença muito cruel.
Bram lembrou-se do braço. E viu que a ligação estava feita. Deus não joga dados, tudo estava perfeitamente concluído antes mesmo de ter começado. O sonho, o sangue nos poemas. Tudo estava ligado. Beatriz lhe disse que há alguns meses, o seu namorado, o mesmo que namorava desde que era adolescente havia ido embora sem deixar nem uma carta para ela. Partira com outra mulher com quem já tinha um filho pequeno. A tristeza era mais pelo desapontamento do que pelo amor.
—Eu sei o que é isso. – disse Bram.
—Você já passou por isso antes? - Perguntou Beatriz.
—Não, mas sei me colocar muito bem no lugar dos outros. Isso foi sempre uma das coisas que eu sabia fazer de melhor. Eu consigo imaginar como você deve estar se sentindo, apesar de nunca ter havido ninguém na minha vida.
—Você nunca teve ninguém? – perguntou Beatriz espantada – Nunca teve uma namorada ou alguém que lhe completasse?
Bram viu que a resposta mudaria brevemente.
Olharam-se e nada mais precisou ser dito. Às vezes a vida nos conduz a caminhos aparentemente sem sentido. Às vezes nos sentimos completamente perdidos, mas no final de cada trilha há sempre a resposta. É o que há de melhor na vida, o que ela nos reserva a cada dia que passamos aqui nesse mundo. É preciso entender que no final todas as coisas se resolvem de alguma forma.
Bram e Beatriz beijaram-se e entenderam o porque do pouso forçado daquele avião. Entenderam porque a vida precisou que eles estivessem ali, em uma ilha afastada do resto do mundo para que eles pudessem se encontrar e descobrir o que cada um deles significava para o outro.
Foram regatados alguns dias depois. Ninguém morreu e nem ficou doente pois haviam mantimentos no avião. Muitas pessoas encontraram o final de alguns caminhos da vida naquele dia e muitas apenas entraram em novos caminhos. Estamos em um infinito labirinto.
Eles se mudaram para a casa de Bram. E em pouco tempo novas estradas foram abertas e sabiam que tanto o mal quanto o bem poderiam passar por ali.
Em dois anos nasceu Amélia. Uma linda garotinha que parecia ser um presente do céu. Um ano depois nasceu Davi, uma criança que tinha em seus olhos a profundidade de muitas vidas.
E quando ele olhou pra trás e viu o seu passado, entendeu que tudo deveria ter acontecido exatamente daquele jeito e que nunca mais se culparia por nada que havia feito ou deixado de fazer. Pois pra tudo há um sentido e um significado que as vezes está além de nossas possibilidades. Porque somos apenas humanos. (FIM)
O ZERO E O INFINITO
Ele olhou para seus olhos e notou que a mesma expressão de tantos anos se repetia. Ela não envelhecia e nem dormia, estava sempre ali ao seu lado, perto do seu coração. Ela era o amor da sua vida, o sentido que faltava para a sua existência.
Quando nasceu, Matias era muito fraco e doente. Cresceu em um ambiente catatônico, cercado de impossibilidades financeiras em uma cidade pequena e isolada de todo o resto do mundo onde sempre encontrava a cada esquina alguém para zombar de sua aparência e principalmente de sua magreza e de seus óculos com elevado grau. Passou a adolescência sozinho, abandonado pelos pais, trabalhando para sobreviver. Quando fez a idade para ir embora daquele lugar, resolveu levantar vôo e não olhar pra trás. Chegou a grande cidade onde ninguém o conhecia e onde possivelmente poderia construir uma vida. Foi quando ele viu os olhos da mulher que mudaria sua vida. Matias estava disposto a lutar o quanto fosse possível para poder construir a sua vida da melhor forma possível. Ele foi até ela e totalmente envergonhado descreveu um monólogo poético, digno de fazer com que os olhos que o observavam pudessem enxerga-lo maravilhoso. Ela foi com ele pra sua nova casa e sem nunca dizer uma palavra se quer, deixou toda a vida de Matias mais iluminada.
Era quinta feira e ele resolveu levantar mais cedo. Encarou o mundo a sua volta e percebeu que podia enxergar tudo sem os óculos. Se levantou sem as costumeiras dores no corpo. Ela não dormia na cama com ele, dormia na sala, no mesmo lugar em que vivia sempre. Matias havia sonhado com ela deitada em sua cama e estranhou o fato de não se lembrar de sua voz. Olhou-se no espelho do banheiro e percebeu a mudança em sua face que a ausência dos óculos causava. Caminhou até a sala vestindo sua camisa das quintas feiras quando finalmente ele a encontrou parada, olhando-o como sempre fizera. Ele estava espantado, como pôde viver tantos anos na cidade com aquela moça sem ter percebido. O ar parecia faltar-lhe. Caminhou como um derrotado até ela como se o peso de toda uma existência estivesse em seus ombros.
— Então é por isso que nunca me respondeu, nunca se deitou na cama comigo e nunca me deu sequer um beijo.
Não havia resposta. Ele levantou os olhos e encarou os de sua companheira. Percebeu que a vida que ela tinha era apenas um sopro de sua necessidade de amor. Chorava compulsivamente enquanto posicionava os dedos por detrás de sua cabeça e a rasgava da parede, deixando-a cair no chão.
— Ela nunca esteve aqui! - gritou Matias – Eu vivi todo esse tempo e ela nunca esteve comigo de verdade! Como pude viver até agora apenas com a sua fotografia colada na parede?
Num estante ele percebeu que a sua solidão havia feito com que se apaixonasse pela linda atriz da foto que encontrara quando chegou a cidade, mas contentou-se em ter apenas a foto, achando que isso era o bastante. Olhou para o céu azul pela janela. Levantou-se mais forte que nunca na vida. Pegou o casaco, enxugou as lágrimas e saiu pela porta com a foto nas mãos. Seu único objetivo: conhecer o grande amor de todos aqueles anos.
3/07/2007
8 . 3 . 07
Ela era mais forte que meu corpo
Que desapareceu, que desapareceu
No azul infinito o último instante
E na areia da praia vou me deitar
Só um corpo/ casca, sem alma
Os olhos cegos olharão o céu
Os dedos dormentes tocarão os lábios
As portas estarão fechadas
Eu contemplarei seus adornos barrocos
E nada haverá de ser feito por mim
3/04/2007
2/21/2007
Amargo
Levantou-se, andou um pouco pela sala do seu apartamento e começou a olhar pela janela do 14º andar. Era domingo e ela realmente não sabia o que fazer com que estava dentro dela, uma escuridão completa misturada a claridade excesiva da cocaína, a vontade não lúcida de existir, além do normal.
Lembrou-se então dos seus pais que nunca saíram da cidade pequena em que moravam. Nunca se arriscavam, nunca pensavam em viver uma vida além dos seus próprios horizontes. Caroline se perguntava se eles haviam sido felizes enquanto estavam morando naquela casa feita de tijolos velhos e barro. Mas ela não conseguia encontrar sorrisos autenticos em sua memória. Sua mãe estava sempre com um riso amarelo estampado nos lábios e seu pai só sabia reclamar em voz baixa, com a cabeça entre as mãos e olhando o chão.
Ela nunca se sentira tão livre quanto agora, ninguém nunca descobriria o que ela havia feito e ela estaria com tudo o que poderia precisar para ter uma vida perfeita. Mas ela não sabia o que fazer com tudo aquilo que havia dentro dela. Ela queria poder voar e queria poder estar em vários lugares ao mesmo tempo, ser onipresente, ser grandiosa. A cocaína aumentava o seu angulo de visão e isso fazia com que ela se diferenciasse dos seus tão pequeninos e escondidos pais.
As árvores do outro quarteirão estavam com uma folhagem tão bonita agora, e ela nunca havia percebido isso. Se lembrou das folhagens das árvores que estavam plantadas ao redor de sua antiga casa e fechou os olhos para poder ver melhor, mas agora as coisas nunca mais poderiam ser as mesmas. Faziam já 2 anos que ela estava em outro universo, em outro mundo completamente diferente. Na urbana e agitada vida da cidade.
Caroline andou até a cozinha e queria um copo de café. Estava com uma vontade absurda de fazer sexo e não sabia como se satisfazer. Porque tudo em sua vida agora parecia ser tão possível de ser realizado e tão complexo ao mesmo tempo? Ela se lembrou de uma frase que lera em um anúncio antes de sair da casa de seus pais: "seus sonhos estão nas núvens? Pois estão no lugar certo, comece agora a construir os alicerces".
Se serviu de uma xícara de café muito quente e queria beber pequenos goles sem esfriar, para que pudesse desafiar seus próprios limites. Caroline se queimava e se entusiasmava, colocando a mão por baixo da saia e encontrando-se molhada pela liberdade. E sem perceber, começou a lentamente a se masturbar. A vontade de sentir o que era o máximo era muito grande, era infinita, ela não sabia o que fazer com tanta vontade, com tanta grandeza dentro dela querendo explodir. Entornava aos poucos pequenas quantidades de café quente em seus seios e sentia dor, gritava, e continuava a se masturbar.
Lembrou-se do dia em que ela resolvera fazer tudo o que tinha em mente. Sabia que seus pais estavam guardando dinheiro para que ela pudese ir para uma faculdade particular e essa quantia já devia estar bem generosa. Seduziu então o jovem Jobir, de 17 anos que queria acima de tudo provar o gosto de Carolina. Então eles foram pra casa de barro e enquanto os pais dela estavam ainda do lado de fora eles começaram seu ato de sexo no lugar mais acessível da casa. Ela gritava de prazer e dor por estar perdendo todas as virgindades possíveis. Jobir estava muito concentrado quando recebeu o golpe na nuca que o deixou caído no chão. O pai de Carolina os havia pego em flagrante e gritava sem parar. Jobir levantou-se do chão com as calças abertas e, enquanto chorava de tanta raiva, esmagou o crânio do pai de Carolina com uma cadeira. Ela sorria levemente por seu plano estar dando certo.
Todas essas lembranças faziam com que ela chegasse ao quase orgasmo enquanto se deliciava em sua cozinha e em seu café.
__________continuação
Ela continuou a se lembrar como se tivesse sido ontem, quando Jobir se desesperou e esmagou a garganta da mãe de Carolina, enquanto ela tentava proteger o marido. Ele, então, olhou para Carolina com um ar de perdão e viu que ela segurava em suas mãos uma arma. Planejadamente, atirou na cara de Jobir e por alguns instantes contemplou a mistura dos sangues na sala da casa que tanto odiava.
Foi vista como vítima. Pegou todo o dinheiro e foi para a cidade. Alugou um apartamento de onde poderia ver o mar e ver que era livre.
Agora ela estava ali, na cozinha, queimada e ainda não havia gozado. Parou de repente, abriu os olhos e se contemplou em um espelho. Caminhou lentamente até a sala e viu o pó branco sobre o vidro da mesa. Cheirou. Sentiu. Lembrou.
Agora ela se via abraçada com o pai, enquanto ele a salvava de uma correnteza, quando ela queria na verdade pegar um briquedo que caíra no rio. Viu-se dormindo nos braços da mãe enquanto estava com febre e não estava com forças o bastante para se levantar. Lembrou-se de que ela não odiava seus pais que tanto a amavam. Olhou para dentro de seus próprios olhos e viu de quem era o ódio que ela sentia. Um auto-ódio por nunca haver se encontrado de verdade, e agora, ali estava ela, amedrontada por ver quem ela era. Caminhou lentamente até a varanda. Abriu as portas e contemplou o mar. Ela queria voar até lá. Ela queria ser parte do universo, mas isso parecia ser impossível. Ela queria poder acordar um único dia de sua vida e se sentir completa. Mas não conseguia, havia sempre algo faltando. Subiu então no para-peito. Inclinou-se para a frente, olhou o mar, queria voar até lá. Se lançou em uma queda livre, enquanto chorava por não ser, o que só deixou de ser, quando encontrou o chão.
2/11/2007
O homem como lobo do homem e como lobo do mundo.
Mas, vamos ao assunto:
Acredito que muitos de nós já ouvimos a expressão "o homem é o lobo do homem". Ou seja, o homem contém dentro de si mesmo a sua própria destruição, e se pararmos para complementar a expressão, o homem contém também a destruição de muito mais do que somente ele próprio.
Seria o final da nossa espécie um bem para o mundo e para o universo? Será que assim nós estaríamos exterminando o grande vírus que tem a potencialidade de terminar com a vida na Terra?
Eu percebi hoje como podemos ser egoístas, sem pensar na dor de quem está do nosso lado mas nos indignando com coisas que nem chegam a doer que acontecem conosco. E percebi como nós podemos ser frios, a ponto de torturar e matar outros seres que não tem a capacidade de se defender.
A honra cometeu suicídio. Todos olham esfomeados pro próprio umbigo!
Acabamos liberando em pouco mais de uma centena de anos, carbono que havia se armazenado por milhões de anos no solo. Desencadeamos um processo crônico de suicídio. O efeito estufa, o uso indiscriminado da água potável, o desrespeito com a vida animal e vegetal, com seus habitats. Jogamos lixo pela janela do carro como se fosse a coisa mais normal do mundo. E esse lixo cai sobre um solo feito de asfalto e cimento, que esmaga e sufoca onde realmente deveriamos estar pisando.
O dinheiro é tão importante que não há outro motivo para se viver. Os sonhos são abafados por ele, a vida de outras pessoas perdem o sentido por ele, há povos se dizimando, religiões se confrontando, realidades virtuais sendo criadas, países grandes engolindo países pequenos financeiramente falando!
O ser humano inventou deus e o guardou em uma gaveta e agora o usa apenas como uma espécie de comprimido, capaz de fazer com que ele deite sua cabeça sobre um travesseiro e consiga pegar no sono sem um pingo de remorso. Há ainda aqueles que já desenvolveram tamanha imunidade à culpa que nem precisam mais usar esse artifício.
Até os idiotas mais acéfalos conseguem ver a merda já feita: Bush está com medo, nem todo o seu dinheiro pode manter o seu queixo erguido agora!
Então e me pergunto, será que todos param pra imaginar o mundo que criamos? Cheio de dor, de morte e de corrupção. Um mundo que fede só de se imaginar. Será que teremos um futuro? Quantos anos, vivendo assim, dando de ombros, nós ainda temos?
Enquanto cada ridícula cabeça humana não começar a entender que ela pode mudar alguma coisa agindo direito, conectando-se com todo o plante não pela internet, mas pela alma, nós estaremos fadados a uma rápida e dolorosa extinção.
Pensar é o que há de mais importante agora!
2/10/2007
XII– De volta a vida
Ele se preparava para o próximo turno.
—Dimas - disse Bento, o irmão mais novo de Dimas, ofegante por ter subido as escadas correndo para dizer algo que parecia inadiável - mamãe disse que você não precisa pegar o próximo turno. Ela disse que não está com sono, vai continuar trabalhando. Você pode voltar a dormir.
Dimas olhou para seu irmão e percebeu um ar estranho em sua face. Alguma coisa parecia ter acontecido.
—O que aconteceu Bento, parece preocupado. - disse Dimas, sem parar de se vestir e com uma expressão de profundo desânimo que demonstrava que ele já havia perdido as forças para lutar em alguma batalha e já estava entregue.
—Não Dimas, não foi nada - disse Bento ensaiando um sorriso que obviamente era falso - é que a mamãe está com pena de você, tem estado muito cansado por causa da faculdade.
—Bento, estou bem, não há nada de mal em fazer o meu trabalho. Já estou acostumado em fazer isso. Quando você ainda era uma criança eu já ajudava nossos pais, antes de papai ir embora.
—Não cara, você sabe como a mamãe é impaciente, ela disse para você não descer. Volte a dormir!
Dimas parou e olhou para o lado. O rosto de Bento na penumbra parecia altamente desesperado. Ele agora tinha certeza que algo havia acontecido, e não era algo bom. Mas como era comum, Dimas parou de se vestir e resolveu se jogar do jeito em que estava na cama. Então, disse para Bento com um ar irônico:
—Ótimo Bento, você acabou de sugar as minhas últimas forças. Vou ficar aqui e descansar. Diga a mamãe que quando ela não agüentar mais a ficar de olhos abertos que ela pode me chamar. Afinal de contas, dar os pêsames a noite toda também cansa muito.
Bento olhou para o irmão e disse:
—Tudo bem Dimas, durma um pouco, aproveite o dia, você não tem aulas hoje. São quatro horas da tarde, durma até a meia noite.
Obviamente Dimas não estava com tanto sono assim. Ele não iria dormir até a meia noite para depois engatar uma segunda marcha no seu sono até de manhã. Há muito tempo, nem nos feriados e nem nas férias ele havia tido tanto para descansar. Sabia que algum problema havia acontecido e sua mãe obviamente queria mantê-lo afastado. Devia ser algo que o afetasse. Ou não, devia ser simplesmente algo que o tiraria do sério e faria com que se metesse em mais uma briga com algum cliente que se recusava a pagar o valor cobrado. Ele sempre defendia sua mãe, nem que o cliente fosse duas vezes maior que ele.
Não imaginou muito, lembrou que as notícias ruins chegam rápido e ficou apenas aguardando até que elas chegassem em seus ouvidos.
A família de Dimas já estava no ramo funerário há mais de 50 anos. Eram os mais conservadores e também agiam dentro da religião católica, seguindo a risca todas as determinações que o vaticano estabelecia. Dimas, como seus irmãos, trabalhava vendendo os caixões, flores e na organização de velórios que aconteciam na própria capela barroca que eles haviam herdado muitas gerações atrás. Por isso, muitos corpos eram velados por lá.
Ele já estava tão condicionado a manter a expressão de torturado que mantinha por todos os lugares que visitava. Na faculdade, era conhecido por suas expressões infelizes e por suas palavras ditas em um tom baixo e suave. Ele se mostrava fúnebre em tempo integral e isso estava em seu sangue agindo como todos da sua família antes dele.
Deitado em sua cama, ele começou a se lembrar de fatos que haviam acontecido recentemente. Estranhamente ele não conseguia se lembrar de como se sentia antes de ter conhecido a menina que havia iluminado seus dias. Amélia, branca e linda como um raio de sol no cinza e preto de seu dia chuvoso. Ela passou no corredor da faculdade e ele estava lá parado diante da porta quando isso aconteceu. Não se lembrava de mais nada a sua volta.
Dimas descobriu que Amélia morava em uma antiga casa de esquina que tinha uma estória bem esquisita. Ela era velha e todos os que moravam lá também eram. Menos Amélia. Sua face era lisa como uma nuvem e seus olhos pareciam penetrar na alma de quem se aventurasse a encara-los.
Dimas se descobriu nesse dia profundamente apaixonado por ela. Ele a encontrou algumas vezes no caminho de casa e em um dia em que as aulas acabaram tarde ele teve o prazer de ver que ela estava sem companhia para ir embora.
Deitado em sua cama, Dimas se lembrava de palavra por palavra:
—Olá - disse ele com um receio enorme de ser ignorado e imaginando que ela nunca teria notado a sua presença na faculdade antes.
—Oi cara - disse Amélia - você é o Dimas, não é?
Parecia que os pés de Dimas haviam parado de sentir o chão. Ele não conseguiu evitar o sorriso que lhe apareceu espontaneamente na face. Como aquela garota que parecia ser de uma outra realidade havia lembrado do seu nome? Será que ela sentia o mesmo que e Dimas? Ele achou melhor pensar que não, deveria ser só uma coincidência. Com certeza ela deve ter ouvido seu nome em algum lugar e se lembrou, ainda mais por ser um nome pouco comum.
—Alou! Você está aí? – perguntou Amélia para Dimas que agora exibia um rosto abobalhado onde sustentava um riso aberto e contente. Dizendo isso, ela o tirou daquela espécie de transe em que ele havia entrado.
—Oi, sim, sim. Eu sou o Dimas, e você é Amélia.
—Vejo que não precisamos ser apresentados por ninguém. – disse isso estendendo a mão para um aperto.
Dimas apertou-lhe a mão e teve o prazer de sentir a macia pele de seus dedos encostando nos seus. Aquilo pra ele já valia o dia.
—Quer uma companhia para casa? – perguntou finalmente Dimas.
—Mas você não mora para o outro lado?
—Sim, mas hoje estou indo para o lado da sua casa.
—Ah, você sabe onde moro? Como?
Dimas então se corou de vergonha. Ele não sabia o que responder para ela. Desconversou. Disse que era um prazer acompanhar uma senhorita até a sua casa. Ela achou estranho o tom, mas gostou dele.
Mas Dimas não sabia muita coisa de Amélia. Com a sua crença extremamente católica, ele se sentiu em meio a uma batalha quando veio a saber na conversa que tiveram naquela noite que ela estudava uma religião antiga, pagã e condenada pelo catolicismo. Ela chamava de “felicidade em frascos de vento” tudo aquilo que ela dizia ser a sua inspiração de viver. Olhava para Dimas com um olhar tão especial que ele não conseguia mais parar de lembrar dos olhos verdes que ela tinha.
Dimas se manteve quieto por muito tempo sobre a garota que apelidou de “A Menina do Dia”, porque, ele dizia, foi ela quem deu a ele o dia mais feliz de sua vida, o dia em que eles conversaram pela primeira vez e ele se sentiu mais uma pessoa no mundo, não menos que isso.
De volta a seu quarto, em uma pequena pausa em seus sonhos que eram repetidos diariamente como mantras sagrados, Dimas olha seu relógio e vê que já haviam se passado quatro horas. Ele acha que dormiu, mas não, estava preso em pensamentos que desta vez estavam sendo lembrados com uma intensidade muito maior do que das outras vezes.
Durante várias outras caminhadas que Dimas acompanhou Amélia, mesmo tendo que andar tudo de volta até a sua casa, eles conversaram sobre vários assuntos, inclusive um dia especial em que ela deveria encontrar o segredo de sua vida. Um dia aguardado há muito tempo, por cada um que espera saber mais sobre si mesmo.
Eles nunca se beijaram e sua relação não passou e uma profunda amizade. A Menina do Dia o chamava depois das aulas para irem juntos caminhando e ambos conheciam mais dos mundos um do outro. Ela dizia muitas vezes que nada o prendia ali, que estava livre para fazer o que quisesse em toda a sua vida. Dizia isso porque Dimas parecia estar sempre preso no mesmo lugar. Ele não gostava de viajar e tinha medo de sair de perto de onde ele se sentia mais seguro, a sua casa. Em certa ocasião ela disse para ir para a Islândia. Ele disse que gostaria e eles riram daquele momento onde parecia que ele finalmente havia resolvido mais esse seu problema.
E ele entendeu por ela que deve-se aprender algo de bom no que é ruim, deve-se retirar da tragédia o significado da vida. Deve-se tirar da doença a força para se reerguer. Deve-se tirar da solidão o consolo de seu próprio coração. A Menina do Dia era assim, uma pessoa extremamente iluminada.
Bento um dia encontrou uma foto que eles tiraram juntos e perguntou para Dimas se ele havia finalmente encontrado uma namorada com um tom meio irônico. Ele disse que não, mas que gostaria que ela fosse a sua namorada.
No dia em que eles se despediram ele ficou sabendo de algo diferente. Ele encontraria muito de si mesmo, em breve.
Abriu os olhos. Um susto que foi acalmado com o olhar no relógio. Eram dez horas da noite. Ele havia descansado bastante. Se lembrou dela e como se fosse um golpe repentino o entendimento lhe bateu. Não podia ser!
As notícias ruins sempre chegam rápido. Ele já sabia da má notícia antes mesmo de pensar em tudo o que havia pensado novamente. Colocou, ainda na penumbra, os sapatos nos pés sem meias. Vestiu o casaco e resolveu que não se importava mais com o estado do seu cabelo, ele iria descer assim mesmo. Abriu a porta que se chocou contra a parede fazendo um estrondoso ruído.
Bento estava sentado no último degrau da escada. Dimas desceu sem perceber os degraus, tamanha era a sua pressa. Rezava milhares de vezes para Deus, pedindo em milésimos de segundo que não fosse verdade.
—O que foi Dimas – perguntou Bento de forma grave.
—Saia da minha frente irmão.
—Não Dimas, fica aqui cara.
Uma lágrima pelo canto do olho escorreu. O sinal de toda a compreensão. Não adiantava segurar, ele iria saber cedo ou tarde. Bento permitiu que ele passasse.
O desespero se transformou em uma espécie de silêncio em sua alma, nenhum barulho era ouvido por Dimas. Ele caminhou até a sala do confessionário, abriu a porta que dava para o altar da igreja passou por ela sentindo um infinito peso cair sobre seus ombros, o mesmo peso que deveria ser erguido a qualquer custo, pois dele ele retiraria a força para agüentar outras tragédias como aquela.
Olhou para o centro da igreja e lá ele encontrou novamente os olhos que haviam marcado a sua alma, só que agora eles estavam fechados. Amélia estava morta, nada mais valia a pena. Dimas perdeu o equilíbrio, Bento vinha logo atrás e o segurou.
—Calma irmão – disse ele – estou aqui pra ajudar.
Dimas andou até o corpo. Ele olhou pra ela lembrou-se de tudo mais uma vez, como um mantra. Ele então entendeu que suas almas estavam ligadas para sempre.
Branco o disse que ela havia sido morta, no dia escolhido, por tentar salvar um animal. Dimas sorriu. Ele a encontraria com certeza em algum lugar em algum tempo que ninguém poderia saber, pois as almas gêmeas estão eternamente interligadas.
E sem saber, o dia escolhido fez o que deveria fazer. Uniu os fragmentos de uma única alma que estavam espalhados. Amélia, Lucia (ou Lucy), Noah (ou André), Branco, Davi, Amyr (ou Zamaré), Rudi e Mina, Patrícia e Beatriz e muitos outros fragmentos de outras almas que estavam espalhados também. Porque todos somos um e respiramos juntamente com o planeta em que vivemos. As árvores, o céu, os rios e mares são o mesmo ser vivo que cada um de nós. O sal e a água do mar, a força que as plantas retiram do chão, a luz que chega até aqui e o ar que venta nas asas de uma borboleta mas que se tornam furacão do outro lado mundo, tudo isso está dentro de cada um de nós e nós apenas resolvemos nos esquecer disso.
Durante semanas Dimas não conseguiu comer direito e nem dormir. Mas quando finalmente ele viu o que isso tudo significava ele resolveu se libertar. Resolveu carregar o peso que havia adquirido mas de cabeça erguida. Não faria como João que lamentava a morte da esposa diariamente se deixando ser vencido pelo peso do acontecido.
Dimas saiu pela porta da frente em uma bela manhã e respirou fundo o ar que o rodeava. Olhou pra trás e viu a sua mãe com a cara de sempre, a de que dá os pêsames e disse:
—Mãe, estou indo viver, cuide de tudo enquanto estou fora.
E saiu, viajou para longe e descobriu que não tinha raízes, estava em casa onde quer que fosse. Descobriu que o peso que tinha que levar ficava mais leve a cada dia e retirou de todo o mal que encontrava na sua vida a parcela de bem.
E enquanto a aventura de viver durava, no som do walkman de Dimas, uma música do Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band era a trilha sonora de suas descobertas. Exatamente a terceira faixa do álbum...
2/09/2007
LUA NEGRA
Invadirem por final meu equilíbrio
Pensarei por mais um instante
Antes de por fim no meu delírio
Quando a dor for seu amor
E a alegria envelhecida passar por você
O passado te trará rancor
Eu sei, eu verei você sofrer
Mas as lágrimas parecem não bastar
Parecem não suprir a minha dor
E o futuro se enbaça ao tardar
Mas eu não vivo por viver
Preciso muito mais do seu amor
Pra poder dizer que vivo por você*
*encontrei uma folha de caderno velha e amassada ao arrumar um armário. Nela, estava esse poema que escrevi há mais ou menos 10 anos. Eu me lembro bem pra quem ele foi escrito...
III – A estrada e o sol
Ele costumava pensar que para ele existiam apenas dois estados de espírito:
- Quando haviam problemas de mais para preocupar-se e que tiravam sua cabeça da normalidade, não restando muito tempo para si mesmo;
- Quando os problemas não existiam e ele os criava.
Fechou os olhos por dois segundos e sentiu o vento que entrava pela janela de seu carro e começou a agradecer em silêncio a Deus. Agradeceu por tudo o que tinha conquistado até então; pela saúde de todos os seus amigos e de todos os parentes mais importantes para ele. Aproveitou para implorar uma nova postura para si próprio, pois ele se achava ridículo por não estar feliz.
Resolveu fechar de novo os olhos, só que agora estava mais difícil de reabri-los, pois o vento acariciava seu rosto, seus pés pareciam cada vez mais confortáveis. Acelerou de olhos fechados e esperou que a brisa aumentasse. Ele ouviu uma música dentro dele mesmo, algo que não sabia que existia ali e sentiu-se livre. Finalmente André abriu os braços e contemplou da maneira mais aprofundada possível o melhor sentimento que se lembrava de ter sentido.
A rua foi chegando ao final e o sol estava ligeiramente mais baixo quando ele chegou a uma avenida de mão dupla. Os olhos permaneceram fechados, ele não tinha vontade de enxergar agora, só queria o aconchegante escuro de suas pálpebras, tão aconchegante e tão profundo. Tão silencioso.
A linha de ônibus que levava pessoas cansadas de volta para suas casas estava no horário certo. Acabara de sair do ponto onde haviam subido mais oito passageiros aproximadamente. Então, André veio, leve como uma pena e esmagou-se fortemente contra a lateral do ônibus que estava completamente lotado. Voou pelo pára-brisa quebrado e encontrou o frio retorcido da lataria. Caiu sobre o que restou do seu carro.
Dizem que o cérebro de uma pessoa que morre fica cerca de quatro minutos ainda vivo. Então, foi isso que André pensou, na possibilidade de sua morte. Na possibilidade de que essa sensação de liberdade nunca mais terminasse.
Finalmente, depois de algum tempo seus olhos se abriram. Sua pele estava um pouco mais escura, como se ele estivesse pegando sol todo o tempo em que esteve supostamente desacordado. Ele lembrava-se apenas que havia se chocado fortemente contra um ônibus que não tinha nenhuma culpa de estar no lugar certo, na hora em que deveria estar, mas que seria muito bom se não estivesse.
“Tomara que ninguém além de mim tenha se ferido, eu realmente fui muito imprudente e acabei esquecendo tudo a minha volta”.
Esse era o pensamento mais gritante em sua mente naquele momento. Mas ele finalmente havia parado de pensar quando encarou a cor de suas mãos e a aspereza de seus dedos calejados. André não estava em uma cama de hospital, nem em sua própria cama, ele estava deitado do lado de uma mulher loira que dormia profundamente. Os cabelos dela cheiravam muito bem e o sol entrava estranhamente pela janela, parecendo mais um sol de entardecer do que um sol matutino. Ele se levantou e continuou a se surpreender quando notou que seus cabelos estavam de um tamanho que ele não costumava usar, estavam completamente diferentes e quando finalmente olhou-se em uma superfície espelhada, notou que não somente os cabelos estavam diferentes e levemente grisalhos, como também toda a sua face havia sofrido uma grandiosa alteração no período em que ele achou estar em coma.
Ele pensou nas coisas mais absurdas possíveis, inclusive na possibilidade de estar sonhando, ou, de que a vida que ele achava ser verdadeira fosse na verdade uma alucinação. Caminhou completamente absorto para outro cômodo que não parecia ser uma casa, e sim, um trailer parado no meio do nada, onde, com outros trailers, formava um estranho condomínio aberto em meio a uma infinidade de poeira e calor. Procurou água – estava imensamente desidratado – e encontrou um pouco no frigobar. Sentou-se em uma cadeira que estava diante de uma pequeníssima mesa e começou a pensar com os olhos fixos em uma parede que não tinha nada, nem um quadro e nem uma pintura feita. André notou que estava mais alto e mais robusto e que andava pela “casa” sem nenhum tipo de roupa. Isso parecia muito estranho, pois se acordou ao lado de uma mulher e estava sem roupa, algo de interessante deve ter acontecido na noite anterior. Mas, surpreendentemente ele não se lembrava de nada além da forte batida contra a lata fria do ônibus e os seus pensamentos sobre a morte.
Uma idéia então lhe caiu como um raio na mente: deveria consultar um relógio e um calendário. Precisava saber quanto tempo esteve fora. Procurou pela casa e foi somente no braço da mulher ainda adormecida que ele encontrou um relógio que marcava além das horas, a data exata. Era o mesmo dia, quase na mesma hora. Era o mesmo ano, o mesmo século! O que estava acontecendo?
Os olhos da mulher se abriram um pouco, o bastante para enxergar o rosto de André e perceber o seu sentimento desconcertante. Ela esboçou um leve sorriso e André notou que aquela atitude lhe fazia um bem tão grande que ele conseguiu até sentir prazer ao ver o sorriso da mulher. Ela parecia ter por volta de trinta anos e seus olhos eram lindamente verdes, um contraste gritante com a paisagem lá fora. Finalmente ela abriu a boca e disse algo. Ela disse que o amava e entendia que ele ainda era casado e que esperaria o quanto fosse pra ser dele completamente. Mas a frase não assustou tanto André, apesar dele nunca ter sido casado e de ter bem menos idade do que estava aparentando agora. O que mais chamou a atenção dele foi que a frase foi totalmente pronunciada em inglês! Ele sabia um pouco de inglês, algo raso demais para entender tão perfeitamente a frase balbuciada por ela.
Ele abriu seus lábios e, sem pensar, disse que a amava tanto que nada poderia deixá-los separados, e disse tudo em um perfeito inglês cheio de sotaque que ele nem imaginava possuir.
André se sentou na cama e encostou a mão na testa em uma profunda demonstração de confusão. Ela se levantou e deixou o lençol deslizar por seu corpo, fazendo aparecer o seu corpo nu, como o dele, e o abraçou pelas costas deitando sua cabeça na nuca de André e enlaçando sua cintura com as pernas.
— Oh Lucy, eu amo seu corpo, amo a leveza de sua pele. Você era exatamente o que eu busquei toda a minha vida...
Pronunciando essas palavras, André percebeu que ele não era mais André. Fechou os olhos e não procurou mais respostas. Ele sabia pra onde deveria ir e porque. Sabia que finalmente a eterna liberdade que esperou a vida inteira tinha se tornado verdade. A estrada agora estaria livre o bastante para que corresse de olhos fechados, sentindo a brisa da tarde em seu rosto e o Sol a esquentar de maneira acolhedora o seu coração. Se lembraria pro resto da vida do tempo que se chamava André e da sua procura silenciosa por algo que todos procuram, mas que ninguém realmente está disposto a correr os riscos para que a busca chegue a um fim. Algumas pessoas sonham com algo, mas desejam nunca conseguir chegar até seus objetivos, isso acontece porque a busca as preenche tanto que a necessidade da conclusão desta desaparece por completo. Elas costumam sentir-se incompletas, mas estão na verdade mergulhadas no mais doce objetivo de suas vidas.
Noah (como agora André era chamado) acordou em mais uma de suas manhãs e percebeu que Lucy era a parte mais importante de sua liberdade. Alguém que fazia parte de sua busca e que estranhamente foi dada a ele de presente. Nessa mesma manhã, quando completava 65 anos (muitos anos depois de ter deixado de ser André), ele abriu um jornal antigo e viu uma foto que o deixou sem falas. A manchete dizia que um brasileiro havia acordado do coma vinte e três anos depois. Ele falava e andava naturalmente e apresentava uma força de vontade incrível só que havia esquecido tudo, absolutamente tudo da sua vida antes do acidente. Ele sentia-se feliz pois dizia que havia encontrado finalmente algo que procurava a vida toda: uma família.
2/08/2007
A CHAMA
Que suas armas e sua força, seus prantos e religiões
Poderiam fazer-me sucumbir em meu próprio mundo.
Cortaram minha cabeça e mandaram para o norte
As cidades mais altas e cheias de justiça
E lá esperaram que ela apodrecesse como minhas idéias
"Um símbolo", brandaram, "uma corrente"...
Mas minhas memórias ainda estavam lá
Acendendo em cada um a chama da verdade
Meu próprio espírito se tornou adorado
Minha própria mente, a razão do questionamento
Minha própria identidade, o motivo de arrependimento.
Cortaram meus braços e levaram para o oeste
Para as terras de povos humildes e trabalhadores
"Um símbolo", disseram, "uma corda em seus pés"....
Meus músculos ainda estavam contraídos
E os olhos mais curiosos e impressionados entenderam
Que eram, assim como eu, feitos da mesma areia e pó
E minha força se flamejou nos peitos abertos dos pequenos
Aqueles que ninguém queria ter que olhar
Por ter preguiça de abaixar a fronte.
Cortaram minhas pernas e levaram para o sul
Para as terras onde a lei era a de um deus ausente
Onde religiões domavam, como cavalos mansos, o povo
E para aqueles que as olhavam, viam o suporte de minha força
Entenderam que em mim nunca existira um ponto fraco
Nunca em nenhum momento, os joelhos haviam tocado o chão
E o poder germinou em seus sonhos e seus punhos se cerraram
E apanharam suas armas e rumaram para leste
Para onde haviam enviado o meu tronco.
E lá chegando, os povos de todos os lugares
Encontraram cravado ao chão, criando raízes de sangue
Como árvore centenária e como fortaleza
E entenderam que minha vida era eterna, enquanto houvesse vida
E entenderam que não adiantava por uma perna após a outra
E entenderam que que os quatro pilares da razão estavam apodrecidos
E rumaram juntos pela liberdade de todos os sonhos
E destruíram aqueles que estavam no alto, um por um
Assim como os cânceres de suas próprias convivências
E finalmente, sem ninguém sentado acima deles
Olharam para o céu e perceberam que haviam muitas estrelas
E que assim como elas, eles finalmente poderiam ser livres
Assim como eu fui.
1/18/2007
E resolvi decepar aparte de fora de toda a existência
Corroer com ácido estomacal o cheiro verde das consequências
Me escondendo em um universo que há muito faleceu
Eu tinha encontrado um canto escuro e quente pra esperar
O fim dos anos que eu continuava a teimar a ter
Protegendo-me do que não podia me fazer sofrer
Acompanhando-me apenas de quem poderia me surrar
Há muitos anos eu sou um ser pela metade
Há muitos anos o que eu temo é a maldita verdade
De que eu sou apenas mais um na face dessa terra
Resolvi mandar meu universo se fuder
Resolvi parar com essa merda de se esconder
E ver que sou apenas mais um na multidão que se esmera!
1/10/2007
II – A comédia
II – A comédia
Madrugada. Novamente ele acorda e observa o céu pela janela aberta que fica atrás da cabeceira de sua cama. A lua parecia tão bonita aquela hora que ele se recusava a olhar. De repente o telefone toca, o único ruído no meio de um mar de eterno silêncio. Ele reluta em levantar, está terrivelmente cansado e não consegue dormir há dias. Depois de chamadas ininterruptas o telefone para de tocar e retoma, depois de alguns segundos, o seu ato incômodo de berrar na madrugada. Ele abre os olhos de maneira enfurecida. Não sabe porque, mas começa a pensar no dia em que a mãe de seu amigo resolveu corrigir um erro bobo de português que ele havia cometido em um de seus poemas. Ele lembra de ter se sentido humilhado. Para não perder a postura deu um sorriso amarelo e disse que as coisas são assim mesmo, ele não era bom em português mas era ótimo em escrever. Mas ninguém havia dito que ele era um ótimo escritor. Então de onde ele havia retirado essa informação? Estranho, ele não chegou a nenhuma conclusão quando novamente pensou em outra derrota enquanto o telefone não parava de tocar ridiculamente àquela hora da madrugada.
Ele lembrou-se daquele dia em que chegou no trabalho e um funcionário mais antigo, mas que não ocupava uma posição hierárquica mais alta que ele o olhou com um ar de superioridade e de desprezo e disse:
— Você não sente vergonha de ser dessa forma? Não sei, mas se veste e se comporta de maneiras não muito normais. Veja só a sua sala, está suja e desarrumada e você não faz nada pra mudar isso! Você esqueceu qual é a sua função aqui dentro? Não sei se você já notou, mas todos já foram reclamar de você para o chefe, todos falam mal de você pelas costas, comentam a sua má vontade e seu modo ridículo de só dar importância a suas próprias coisas. Coloque-se no seu lugar. Vista-se direito e tenha mais boa vontade. Não vê que o que faz é nada mais que merda nenhuma?
Ele já havia se esquecido que as pessoas podiam interferir tanto em sua vida. Lembrou-se que seus olhos se encheram d’água (motivo que foi usado pelo seu “amigo” semanas mais tarde para mais um pacote de humilhações). Seu estômago doía enquanto ouvia aquelas palavras. Até aquele dia ele se considerava uma pessoa de boa vontade e não media esforços para ajudar qualquer um, até fora do seu horário de trabalho e com coisas que não lhe diziam respeito desde que essas coisas não atrapalhassem o seu modo de viver a vida. Até aquele dia ele se julgava um bom funcionário, mas ninguém havia dito isso a ele. Essa era uma conclusão solitária e silenciosa.
Finalmente o telefone havia parado de tocar, acho que haviam se cansado de tentar. E se fosse algo importante? Ele não queria saber. Talvez fosse mais uma das pessoas com quem era obrigado a conviver tentando dizer que ele era uma pessoa miserável que não faz nada direito.
Finalmente notou que uma pequena lágrima descia por sua face, uma lágrima fria que parecia estar tentando se desprender por horas das pálpebras entreabertas. Ela escorreu diminuindo gradativamente de tamanho e parou no queixo, de onde resolveu pingar até o travesseiro. Simplesmente ele a deixou ir embora para o perfeito mundo dos travesseiros sem nem dizer adeus. Todos pareciam querer ir para longe e ele nem era avisado. Seria isso dramático demais? –pensou ele – Talvez sim... sempre fui o drama em pessoa.
Observou uma nuvem que agora passava lentamente sobre a imagem da lua. Esqueceu por milésimos de segundo toda a angústia que estava sentindo. Talvez algumas pessoas nascem para serem assim, simplesmente sacos de pancada da vida e o que mais amava estava morrendo: seus sonhos. Quem mais lhe confortava estava partindo: sua família. O sentido de sua vida parecia extremamente distorcido. Ele pensou pela milésima vez em suicídio, mas descartou a idéia simplesmente por estar cansado demais para levantar da cama.
CONTINUAÇÃO____________________________________________________
Então ele ouviu novamente o que achou que não teria que ouvir mais naquela noite: o toque do telefone, alto, frio e impiedoso. Algo tão irritante que ele, mesmo mergulhado em sua profunda tristeza e auto-piedade resolveu levantar-se finalmente para atender. Estranhou profundamente o fato de não conseguir mexer os dedos dos pés como costumava fazer segundos antes de se levantar. E esse sentimento estranho foi aumentando de maneira rápida quando percebeu que suas pernas e braços também estavam imóveis. Não conseguia esbugalhar os olhos quando começou a sentir o pânico e começou a se perguntar, com os gritos do telefone como trilha sonora, o que havia acontecido.
Meu Deus, o que havia acontecido com ele? Tudo bem que as doenças sempre estiveram presente em sua vida, mas não daquela forma. O dia estava começando a chegar e o telefone não parava de tocar incessantemente. Ele queria gritar, mas sua boca estava muda, nada acontecia quando tentava inflar os pulmões.
Ouviu batidas fortes em sua porta e pessoas gritando o seu nome lhe ordenando que abrisse. Ele o teria feito se conseguisse, mas não estava em condições. Morava em um prédio, o que impossibilitava que as pessoas o vissem ali imobilizado pela janela.
Queria chamar sua mãe, mas ela não morava mais em sua cidade. Queria gritar por sua namorada que sempre estivera do seu lado, mas ela resolvera ir para longe também. Estava realmente sozinho em sua cama de casal, acompanhado apenas de cartelas e vidros de remédio abertos e espalhados ao seu lado. Passara a noite em uma companhia diferente, que dormira de seu lado e dentro dele.
Agora estava se lembrando, a vida parecia uma comédia, engraçada até demais depois de alguns copos de vinho doce. Tão engraçada que ele resolveu contar uma piada: tomou todos os comprimidos que conseguiu e deitou-se olhando a lua pela janela. Ele havia tentado se livrar de seu fardo, o título que costumava dar a sua vida.
Agora ele entendia o porque de sua imobilidade. Simplesmente ele havia matado seu corpo. Estava morto na cama.
Do outro lado do telefone que tocava sem parar estava um velho amigo de infância que esteve preocupado com os últimos comentários dele e resolvera ligar pra saber se estava tudo bem e se ele queria uma companhia. Afinal, alguém se importava com ele. Tomado por uma profunda preocupação, seu amigo, que morava do outro lado da cidade, acordou todos os conhecidos que moravam mais próximo e pediu para que fossem investigar o que estava acontecendo. Eram eles que batiam a porta.
Finalmente, eles entraram. Ele viu tudo, deitado e morto de onde estava. Viu seu amigo chegar e chorar com as mãos no rosto parecendo desesperado. Via sua mãe chorar até quase desmaiar dizendo que não deveria ter abandonado o seu único filho.Culpando-se por algo que não tinha culpa. Viu sua namorada, respirando aliviada por ter saído daquela relação com um “louco”, pois, de acordo com ela, todos aqueles que acabam com a própria vida são loucos. Por fim, viu a si mesmo sentado em um bar com um copo de cerveja na mão e rindo, rindo sem parar com seus amigos, de coisas que não tinham a mínima graça. Viu-se correndo de bicicleta na chuva fria do inverno enquanto voltava de sua faculdade, tentando se molhar o mínimo possível, mas sem se tocar que não havia uma única parte de seu corpo que estava cheia da água que vinha do céu. Viu-se escrevendo um texto enquanto ouvia Damien Rice, algo sobre a sua vida, algo cheio de erros de português e de concordância, mas que era cheio de alma e tinha realmente um pedaço dele mesmo. Viu as crianças que corriam na rua e riam dele sem mesmo saber porque enquanto ele ria de volta maravilhado com a graça dessas pequenas criaturas. E por fim, viu-se chorando de alegria, quando finalmente percebeu que a vida era cheia de altos e baixos, realmente uma comédia estrelada por nós mesmos e quem escreve o fim de cada uma de nossas vidas somos nós.
1/02/2007
I – Lúcia e o céu de diamantes
Alguns minutos haviam se passado e Lúcia ainda não tinha saído da cama enquanto contemplava o teto e acariciava sua barriga por baixo da roupa e dos lençóis. Lentamente levantou-se e notou que não estava em seu quarto normal, e sim em um lugar que tinha uma disposição física muito parecida, mas com móveis totalmente diferentes. As cortinas das janelas estavam com estranhos bordados demasiadamente complexos e o barulho dos carros não invadia seus pensamentos. Olhou seu relógio de pulso e notou que não estava lá, como também que a marca deixada no braço pelo relógio não mais existia.
— Será que estive em coma? - pensou consigo mesma.
Os pensamentos e as hipóteses percorriam seu cérebro rapidamente e ela teve um medo absurdo de descer as escadas e encontrar tudo diferente. Então ela decidiu procurar um espelho. Levantou-se e correu para o único armário que havia agora no quarto. Abriu a primeira porta e encontrou nada mais nada menos que suas roupas normais dobradas em uma caixa de vidro. Havia algo escrito em um bilhete que estava dentro da caixa, mas ela não conseguia ler. Notou apenas que era a sua própria letra em um papel apagado pelo tempo. Aquele era seu vestido preferido dentro da caixa e com certeza ela teria que se vestir para sair do quarto, para saber o que havia acontecido durante a sua noite de sono. Ela pegou a caixa, que parecia não ser aberta há muito tempo, e retirou de dentro um vestido preto e informal, com pequenas flores em lilás e um decote simples e pequeno. Notou que o vestido estava com uma textura muito diferente da normal e percebeu que ele estava velho. Parecia ter décadas!
Lúcia encontrava-se agora sentada totalmente absorta na beira da cama com o vestido em sua mão esquerda, a mesma que não tinha mais o anel de casamento.
Olhou para ela própria e notou que em seu antebraço, onde havia tatuado o nome de sua filha, Angélica, agora podia-se ler seu próprio nome, Lúcia.
A fome começava a aparecer e ela não sabia mais o que pensar quando finalmente encontrou o espelho lhe contaria o que estava acontecendo.
Olhou-se. Seus dedos tocaram levemente os lábios como sinal de espanto. Seus olhos negros, agora verdes, contavam coisas que ela não poderia nunca em sua sã consciência conceber. Lúcia havia rejuvenescido pelo menos trinta anos em uma única noite de sono. Havia mudado a mobília e a disposição do quarto, colocado cortinas estranhas nas janelas e aparentemente reformado as paredes, principalmente o teto. O mais intrigante era a tatuagem que havia mudado e agora a cor de seus olhos. Lúcia se manteve calada até o momento de pronunciar um “ai meu deus”. Incrivelmente percebeu que sua voz não era mais a mesma, estava bem mais aguda e suave e trazia uma espécie de paz que ela não sabia explicar exatamente.
Por alguns momentos Lúcia pensou que talvez a sua forma antiga nunca tivesse existido, era tudo fruto de um sonho que havia tido durante a noite, quando finalmente encontrou em cima do criado mudo que estava ao lado da cama um livro, uma biografia. O livro chamava-se “Lúcia e o céu de diamantes” e tinha como autora ela mesma! Ela não se lembrava de ter escrito um livro. Foi passando as páginas até encontrar a única foto da autora na parte de dentro da contra-capa. Nessa foto, ela se via exatamente como estava imaginado que era antes de se olhar no espelho. Até a tatuagem estava lá, da maneira certa. Nessa foto, ela aparecia da cintura pra cima e foi quando percebeu que não se lembrava de como eram os seus antigos pés. Olhava fixamente para eles e não sabia dizer se estes eram iguais ou diferentes dos anteriores.
O medo já tomava conta dela por completo quando ela resolveu continuar lendo o livro de onde estava marcado:
“Nas horas mais pesadas de minha vida eu me imaginava como outra mulher, alguém bem mais jovem do que eu, que conseguiria enfrentar esses problemas sem cair nas lágrimas e nas fraquezas que me atormentavam. De olhos verdes e cabelos lisos eu caminhava com passos cada vez mais firmes sobre a terra espinhenta que me servia de país e não abaixava a cabeça pra nada. Me chamava de Patrícia e essa personagem se tornava tão real que em meus sonhos, que sempre começavam com um olhar perdido para o teto pintado de branco em cima da minha cama. Eu conseguia me ver em mundos completamente diferentes. Eu era duas, sendo apenas uma...”
O que dizer dessa passagem? O personagem que ela mesma criara tinha finalmente se tornado realidade ou Lúcia estava presa em mais um desses sonhos.
Nesse momento Lúcia ouve passos na escada e uma mulher abre a porta. Uma face muito conhecida a observa e a deixa cada vez mais intrigada, principalmente depois de ter percebido que em seu braço havia também uma tatuagem, e nessa estava escrito Patrícia.
— Bom dia minha filha – disse a mulher – você dormiu bem?
— Sim, mas, quem é você e o que eu estou fazendo aqui?
— Calma, tenho certeza que tudo será explicado, minha filha.
— Pare de me chamar de “minha filha”! Não sou sua filha. Minha mãe chamava-se Darcy e já é falecida.
— Darcy foi minha querida avó que agora está no céu e você não é Lúcia...
— O quê?
A mulher recuou um pouco e pegou um álbum de fotografias que parecia estar ali por algum motivo ainda não entendido por Lúcia.
— Meu nome é Angélica – disse a mulher.
— Angélica é o nome de minha...
— Você é que é minha filha Patrícia.
Lúcia não sabia mais o que fazer, aquela mulher que estava lhe chamando de Patrícia (o nome fictício que havia inventado alguns anos antes) dizia ser Angélica, sua filha. Ela havia aberto um grande álbum de fotografias onde apareciam Lúcia, Angélica (mais velha do que o que ela podia se lembrar) e uma pequena menina que a mulher disse ser ela mesma, ou seja, Patrícia.
Mas como isso poderia acontecer? Lúcia pensava estar em um sonho, algo como um hipnotismo do qual não conseguia se livrar. A foto provavelmente era fruto dessa sua alucinação. Mas como explicar a figura de Angélica mais envelhecida, agora parecendo uma mulher, se na verdade ela era adolescente?
Então, depois de alguns minutos concentradas na fotografia, Angélica quebra o silêncio:
— Você se lembra de Guilherme?
— Sim, eu me lembro, aquele seu namorado do qual eu nunca gostei...
— Pois é, eu me casei com ele e tive uma filha que resolvi chamar de Patrícia em homenagem a minha mãe, que se comoveu e perdoou a nossa união antes não abençoada. Se você é Lúcia, se você realmente é minha mãe, deve se lembrar desse dia.
— Não, não me lembro.
— Por anos, nossa família adotou o costume de tatuar no antebraço o nome de uma mulher da família a quem nós admirássemos, e eu escolhi tatuar o nome de minha única filha e ao mesmo tempo, o segundo nome de minha mãe.
Lúcia ia ficando cada vez mais boquiaberta com toda aquela situação.
— Você, minha filha, resolveu tatuar no seu antebraço o nome da mulher que você sempre admirou, mas que não teve a oportunidade de conhecer direito, pois ela morreu quando você tinha apenas dois anos. Você é e não é ao mesmo tempo Lúcia, mas não a que me deu a luz, não a que lhe deu essa fita que está pendurada em sua cama para amarrar os cabelos. Você é Patrícia, minha filha, neta de Lúcia, minha mãe. Ela escreveu esse livro pra você, contando sua vida, e você sempre o lê. A ligação entre vocês duas enquanto ela esteve viva era muito forte e nós não podíamos entender. Nunca consegui explicar a sua descrição que era exatamente a que minha mãe, Lúcia, usava para falar de sua personagem. Esse foi mais um dos motivos de termos adotado seu nome. Gostamos de acreditar que minha mãe, que sempre teve um lado meio diferente, pôde prever como você era.
Nesse momento, Lúcia (ou melhor, Patrícia) sentia-se como duas mulheres ao mesmo tempo. Seria ela um elo entre o passado e o presente através da mente de sua avó? Seriam Lúcia e Patrícia a mesma pessoa com corpos diferentes.
Angélica então resolve continuar:
— Você sempre disse que havia lido em um livro que almas gêmeas eram na verdade a mesma alma que em determinado momento eram divididas em várias outras almas e espalhados pelo mundo em corpos diferentes que tenderiam a se encontrar. Acho que você e minha mãe eram almas gêmeas.
— Mas...
— Desculpe Patrícia, mas há mais uma coisa que você precisa saber. Todos os dias, minha filha, você acorda achando que é a minha mãe e eu tenho que convencer você a ser Patrícia. Você nunca se lembra, mas é assim. Por isso que o álbum de fotografias está sempre aqui do meu lado, para lhe provar todos os dias que vocês podem ser almas gêmeas, mas são pessoas diferentes.
E então, a agora conformada Patrícia levanta-se e vai até a janela, puxa a cortina bordada e observa pelo vidro que a cidade lá fora já não existia mais. Os carros e as pessoas haviam dado lugar a árvores e campos verdes e ela sentiu-se em paz. Sentiu-se tão confortável que podia dizer que era duas e que pra sempre seria feliz com aquela repetição diária. Ela sempre amou a sua avó que nunca pode conhecer direito ou que sempre conheceu, antes mesmo de nascer.
O sol iluminava o rosto jovem que deveria estar velho, se ela realmente fosse quem achava ser no princípio. Ela sentia o sol e sentia o chão frio sob seus pés e imaginava o tamanho do universo e também a quantidade de vezes em que sua alma havia se dividido desde sua criação.
Fechou os olhos e imaginou as estrelas que brilhariam à noite e pôde perceber que esta noite não era a de hoje e nem a de amanhã. Percebeu pelos diamantes que piscavam no firmamento que haviam se passado muitas centenas de anos e que ela estava ali, como Lúcia, como Patrícia, como Sofia, como Angelina, como Júlia...




